Minha colega quis ficar sozinha com o prêmio de R$ 5 milhões, e o braço de Kuan Yin se partiu
Parte 3
Na manhã seguinte, Camila voltou para a moradia sozinha. Estava pálida, sem maquiagem e usando uma blusa emprestada pelo hotel porque a bolsa com parte das roupas tinha sido levada. A primeira coisa que fez foi sentar na minha cama e abrir o aplicativo do banco.
— Vou devolver os R$ 20 mil.
— Não precisa fazer isso por minha causa.
— Não é por sua causa.
Ela respirou fundo e fez a transferência.
Fernanda não aceitou bem. Menos de um minuto depois, ligou para Camila e começou a gritar tão alto que eu conseguia ouvir mesmo sem o viva-voz. Perguntou se ela também tinha enlouquecido, se agora todo mundo ia participar da “seita da Júlia” e por que estava devolvendo um presente.
Camila tentou explicar que não se sentia confortável.
Fernanda desligou na cara dela.
Depois, veio atrás de mim.
— Você está colocando todo mundo contra mim.
— Eu nem falei com a Camila desde que vocês saíram daqui.
— Mas fica espalhando que meu dinheiro mata pessoas!
— Eu avisei vocês antes de acontecer qualquer coisa.
Ela apontou o dedo para meu rosto.
— E isso prova o quê? Que você contratou aqueles caras?
As meninas que estavam no quarto se levantaram imediatamente.
— Fernanda, chega — uma delas disse. — Você sabe que isso é absurdo.
Fernanda percebeu que tinha ido longe demais, mas não pediu desculpas.
— Eu só estou dizendo que é muita coincidência.
Aquilo me atingiu de um jeito diferente de todas as ofensas anteriores. Até aquele momento, eu tinha deixado Fernanda chamar minha crença de ridícula, dizer que eu era pobre, interesseira e invejosa. Mas insinuar que eu tinha participado de um assalto era outra coisa.
Peguei meu celular.
— Repete.
Ela franziu a testa.
— O quê?
— Repete claramente que você acha que eu contratei aquelas pessoas.
— Não se faz de esperta.
— Então não diga uma coisa dessas se não consegue sustentar.
Fernanda recuou.
Foi naquele momento que percebi que meu medo estava começando a mudar de forma. Eu ainda temia o aviso da imagem, mas já não estava disposta a aceitar qualquer coisa só para evitar conflito.
Nos dias seguintes, comecei a organizar tudo.
Não para pedir metade do prêmio.
Guardei o comprovante do Pix que eu havia enviado a Fernanda quando compramos o bilhete, as mensagens daquele dia e a conversa posterior no grupo da moradia. Em uma delas, enviada antes do sorteio, Fernanda tinha escrito: “Júlia escolheu os números, então se a gente ganhar ela vai ter que me pagar um jantar”.
Até então, aquela frase não significava nada.
Agora, mostrava claramente que, antes de existir um prêmio, ela própria tratava a aposta como nossa.
Também salvei as mensagens em que eu dizia que não queria receber o dinheiro, mas recusava declarar que a compra tinha sido exclusivamente dela.
Procurei a assistência jurídica gratuita oferecida pela universidade. Expliquei tudo, inclusive o fato de que não tinha intenção de entrar com uma ação para receber minha parte.
A advogada que me atendeu ouviu sem interromper.
No fim, perguntou:
— Então o que você quer?
Pensei um pouco.
— Quero que ela pare de dizer que estou tentando roubar o dinheiro dela. E, principalmente, quero me proteger se ela resolver me acusar de alguma coisa.
— Então faça exatamente isso. Preserve os registros, não ameace, não negocie sozinha e não assine declaração falsa.
Era simples.
Nenhum documento mágico.
Nenhuma solução imediata.
Apenas limites.
Saí de lá um pouco mais leve.
Enquanto isso, a situação de Fernanda piorava por razões bem menos misteriosas do que a imagem de Kuan Yin.
Os assaltantes tinham levado documentos e conseguido fotografar informações pessoais antes de abandonar um dos celulares. Fernanda precisou bloquear cartões, avisar bancos e alterar acessos. Além disso, começaram a aparecer mensagens de números desconhecidos mencionando o prêmio e até nomes de parentes dela.
A polícia investigava a possibilidade de pessoas terem recolhido dados das próprias postagens públicas.
Eu não disse “eu avisei”.
Não precisava.
Fernanda deixou de publicar por alguns dias.
Depois voltou fazendo exatamente a mesma coisa.
Comprou roupas, marcou restaurantes, fez reservas caras e começou a falar de investimentos que mal compreendia. Era como se precisasse provar a todos, e talvez a si mesma, que nada tinha mudado.
Camila se afastou.
Uma noite, enquanto estudávamos, ela disse:
— Você sabe que ela me pediu para mentir, né?
Levantei os olhos do notebook.
— Mentir sobre o quê?
Camila apertou os lábios.
— Sobre o bilhete.
Meu corpo ficou rígido.
— Quando?
— No dia em que fomos ao hotel, antes de receber o prêmio. Ela perguntou se, caso alguém questionasse, eu diria que sempre ouvi vocês falarem que o bilhete era dela.
— E você aceitou?
Camila baixou a cabeça.
— Eu não respondi direito. Depois ela me deu os vinte mil. Na hora eu quis acreditar que não tinha relação.
Fiquei alguns instantes sem falar.
Não porque aquilo fosse uma grande revelação. Na verdade, combinava perfeitamente com a folha que Fernanda queria que eu assinasse e com a gravação que tentara fazer.
— Ela disse que o dinheiro era para você mentir?
— Não com essas palavras.
— Então não diga que foi pagamento se você não sabe.
Camila ergueu os olhos, surpresa.
— Você ainda está defendendo ela?
— Não. Estou me recusando a fazer com ela o que ela está fazendo comigo.
A frase saiu antes que eu pensasse.
E me fez bem.
Dois dias depois, Fernanda recebeu uma notificação extrajudicial.
Não era minha.
Era de uma empresa de consultoria financeira que ela tinha contratado poucos dias antes e com a qual já estava discutindo. Fernanda havia transferido R$ 300 mil para uma aplicação depois de conhecer um suposto assessor por indicação de pessoas de uma festa.
A instituição indicada por ele não aparecia nos registros que o banco dela conseguiu confirmar.
O dinheiro não sumiu magicamente em segundos, mas a transferência já estava feita e a recuperação dependeria de investigação e procedimentos bancários.
Fernanda entrou em pânico.
Veio para a moradia chorando, dizendo que todo mundo queria roubá-la desde que ela tinha ganhado.
Ninguém comemorou.
Nem eu.
— Você precisa registrar tudo e parar de fazer transferências para quem acabou de conhecer — falei.
Ela me encarou com os olhos vermelhos.
— Não começa.
— Não estou começando nada.
— Você está adorando isso.
Fechei o livro que estava lendo.
— Não estou.
— Claro que está. Eu fiquei com o prêmio e agora tudo dá errado. Deve ser maravilhoso para você.
— Fernanda, você foi seguida depois de postar onde estava. Agora transferiu trezentos mil para alguém que conheceu numa festa. Isso não é uma maldição que eu coloquei em você.
Ela ficou muda.
Continuei:
— Eu ainda acredito no aviso que recebi. Mas você também está tornando tudo mais perigoso com suas próprias escolhas.
Fernanda chorou em silêncio.
Pela primeira vez desde o sorteio, não parecia arrogante.
Parecia apenas uma garota de vinte e poucos anos que tinha recebido dinheiro demais de uma vez e acreditado que isso a tornava intocável.
Quase senti pena.
Quase.
Então ela abriu a bolsa e tirou outra folha.
— Assina.
Meu peito apertou.
Era uma nova declaração.
Mais longa dessa vez.
Dizia que eu reconhecia Fernanda como única proprietária do bilhete, que nunca tinha contribuído para a compra e que qualquer afirmação anterior sobre divisão tinha sido “brincadeira”.
— Para que isso?
— Meu advogado falou que você pode tentar me processar depois.
— E você contou para ele que eu já disse várias vezes que não quero sua parte?
— Ele falou que palavra não basta.
— Então mostre as mensagens.
Fernanda desviou os olhos.
Entendi na hora.
As mensagens eram justamente o que ela não queria mostrar.
— Você quer que eu minta porque sabe que existe registro de que compramos juntas.
— Eu só quero paz.
— Não. Você quer segurança para a versão que inventou.
Ela apertou a folha entre os dedos.
— Eu posso te dar R$ 100 mil para assinar.
As meninas no quarto ficaram imóveis.
Senti um arrepio subir pela nuca.
— Não.
— Duzentos.
— Não quero seu dinheiro.
— Quinhentos mil.
— Fernanda.
— Um milhão.
Levantei-me.
— Você ainda não entendeu nada.
— Então quanto?
Foi ali que a pouca pena que eu sentira desapareceu.
Ela realmente acreditava que tudo tinha preço.
A amizade.
A verdade.
O medo.
A consciência das pessoas.
Até o silêncio.
— Você quer saber quanto custa minha assinatura numa mentira? — perguntei.
Fernanda me encarou.
Peguei a folha, rasguei ao meio e coloquei os pedaços sobre a mesa.
— Não está à venda.
Ela ficou vermelha.
— Você vai se arrepender.
— Talvez. Mas não desse jeito.
Fernanda pegou os pedaços e saiu.
Naquela mesma noite, mandei uma mensagem formal dizendo que não autorizava o uso do meu nome em declarações falsas sobre a compra do bilhete e que qualquer acusação contra mim deveria ser feita pelos meios legais.
Depois bloqueei Fernanda nas redes sociais.
Eu não queria acompanhar festas, compras, ameaças ou ostentação.
Só queria terminar o semestre.
Três semanas se passaram.
A investigação sobre os R$ 300 mil continuava, e parte da movimentação tinha sido bloqueada antes de chegar ao destino final. Fernanda talvez recuperasse uma parcela, talvez não. Ninguém sabia.
Ela já não aparecia tanto na moradia.
Camila também evitava falar dela.
Numa sexta-feira, recebi uma ligação da minha mãe.
— Quando você vem para casa buscar a nova imagem?
Olhei para a caixa no armário.
— Neste fim de semana.
Na manhã seguinte, peguei um ônibus para o interior.
Meus pais me encontraram na rodoviária.
No domingo, fomos juntos ao templo.
Levei a antiga imagem embrulhada no mesmo pano.
Um dos responsáveis pelo local ouviu minha mãe contar o que tinha acontecido. Ele não confirmou previsões, não falou em morte e nem tentou explicar o futuro.
Disse apenas:
— Às vezes, o aviso mais importante não é sobre o que vai acontecer. É sobre saber a hora de parar.
A frase ficou comigo.
Recebi uma nova imagem.
Quando voltei para Campinas, achei que finalmente teria alguns dias de tranquilidade.
Mas, assim que entrei no quarto, Camila veio correndo.
— Júlia, a Fernanda está te procurando desde ontem.
— Por quê?
Camila engoliu em seco.
— Porque ela quer te entregar metade do prêmio.
Pensei que tivesse ouvido errado.
— O quê?
— Ela disse que não aguenta mais. Disse que tudo começou depois que ficou com o bilhete inteiro.
Coloquei minha mochila no chão.
— Eu não vou aceitar.
— Ela sabe.
Camila parecia ainda mais nervosa.
— Então por que está me procurando?
Camila apontou para a porta.
— Porque ela disse que, se você não aceitar metade, vai transferir tudo para você.
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