Home

A família Gouveia procurava uma madrasta para o herdeiro de cinco anos — eu levei meus diplomas e fui escolhida

Parte 3

Augusto fechou o notebook devagar. Não demonstrou irritação imediata, o que, nele, era quase mais ameaçador do que levantar a voz. Cruzou as mãos sobre a mesa e perguntou:

— Você está aqui há dois dias. Acha que já entendeu tudo?

— Não. Mas entendi o suficiente para saber que Miguel conta quantos dias cada pessoa fica nesta casa.

A expressão dele mudou de forma quase imperceptível.

Eu empurrei o contrato na direção dele.

— Essa cláusula precisa sair.

— Não é tão simples.

— É simples para uma criança. Ela lê a realidade assim: se der trabalho, alguém vai embora.

Augusto se levantou.

— Essa cláusula existe para proteger meu filho.

— De quê?

Ele caminhou até a janela. Lá fora, as luzes de São Paulo pareciam distantes demais daquela casa enorme e silenciosa.

— De pessoas que aparecem dizendo que querem cuidar dele e, três semanas depois, percebem que preferiam a conta bancária do pai.

Eu não respondi.

Augusto continuou:

— Uma das mulheres que conhecemos antes de você dava presentes para Miguel e depois perguntava a ele quais eram meus horários. Outra publicou fotos do interior desta casa. Uma terceira começou a pressionar para que o casamento fosse antecipado antes mesmo de criar qualquer relação com ele.

Aquilo explicava parte da rigidez.

Mas não tudo.

— Então você teve experiências ruins com adultos e resolveu ensinar seu filho a esperar que todo adulto vá embora.

Ele se virou.

— Não coloque palavras na minha boca.

— Não preciso. Miguel colocou. Ele sabe quantos dias cada pessoa ficou.

Augusto passou a mão pelo rosto, claramente desconfortável.

— A mãe dele saiu de casa quando ele tinha pouco mais de dois anos. Desde então, o contato é raro e sempre depende da disponibilidade dela. Durante meses, ele acordava perguntando quando ela voltaria. Depois parou de perguntar.

A voz dele continuava controlada, mas a última frase saiu mais baixa.

Eu compreendi, enfim, de onde vinha aquele pequeno menino que não pedia.

Miguel não era indiferente.

Tinha aprendido que desejar a presença de alguém era perigoso.

— E você achou que organização resolveria isso.

— Organização é previsível.

— Afeto também pode ser, quando o adulto cumpre o que promete.

Augusto me encarou.

— Você se candidatou por vontade própria.

A frase acertou onde precisava.

— Sim.

— Você viu uma oportunidade absurda, colocou seus certificados sobre a mesa e aceitou as condições.

— Aceitei.

Não adiantava fingir que eu havia chegado ali por algum chamado nobre.

Eu tinha vinte e nove anos, uma sequência de formações que raramente cabiam na mesma vaga de trabalho e uma vida inteira ouvindo que eu “sabia um pouco de tudo, mas precisava escolher uma coisa só”. Quando vi aquela seleção, pensei que, pela primeira vez, todas as minhas habilidades poderiam servir para alguma coisa ao mesmo tempo.

Também pensei no salário.

Seria mentira negar.

— Entrei porque achei que conseguiria fazer esse trabalho — falei. — Só não sabia que encontraria uma criança tentando não gostar de ninguém para não sofrer quando a pessoa fosse embora.

Augusto permaneceu quieto.

— E agora? — perguntou.

— Agora não vou fingir que sou a solução para o seu filho.

Ele franziu a testa.

— Foi para isso que você foi contratada.

— Não. Fui contratada para entrar numa família. Uma família inclui você.

Puxei uma cadeira e sentei.

— Se quer que eu continue aqui, precisamos mudar algumas coisas.

— Que coisas?

— Primeiro, ninguém fala em substituição perto de Miguel. Segundo, você vai participar da rotina dele.

Augusto quase sorriu, mas não havia humor na expressão.

— Tenho uma empresa com quase quatro mil funcionários.

— E um filho.

— Você não entende minhas responsabilidades.

— Entendo perfeitamente. Só não aceito que use quatro mil pessoas como desculpa para deixar uma criança de cinco anos acreditar que é mais fácil administrar uma empresa do que jantar com ela.

A mandíbula dele se contraiu.

Por um instante, achei que me mandaria embora.

Em vez disso, perguntou:

— O que está propondo?

Eu já havia pensado nisso.

— Uma refeição por dia, sempre que estiver em São Paulo. Quinze minutos sem celular já servem. E sexta-feira, Dia da Família.

— Já disse que tenho reunião do conselho.

— Então vai precisar decidir qual compromisso só pode ser cumprido por você.

Ele se levantou novamente.

— Você fala como se tudo fosse simples.

— Não é simples. Só é importante.

Na manhã seguinte, Augusto apareceu para o café às sete e dez.

Miguel ficou tão surpreso que esqueceu de levar o copo à boca.

— Bom dia — Augusto disse.

— Bom dia.

Os dois ficaram olhando para a mesa.

Era evidente que nenhum deles sabia o que fazer com aquela situação.

Coloquei uma cesta de pães entre os dois.

— Vocês poderiam começar comendo.

Augusto me lançou um olhar que pedia silêncio.

Obedeci.

Ele tentou conversar com Miguel sobre a escola.

Perguntou sobre matemática.

Miguel informou, com toda a seriedade:

— Eu tenho cinco anos.

Augusto piscou.

— Certo.

— Ainda não tenho aula de matemática desse jeito.

— Entendi.

Mordi a parte interna da bochecha para não sorrir.

Depois de alguns minutos desconfortáveis, Augusto apontou para o livro ao lado do filho.

— Esse é o dos pinguins?

Miguel levantou a cabeça.

— Você sabe?

— Você pediu a edição nova no mês passado.

— Achei que a sua assistente tivesse comprado.

— Ela comprou. Eu mandei.

Algo no rosto de Miguel se suavizou.

Naquele instante percebi que Augusto prestava atenção.

O problema era outro.

Ele transformava cuidado em providências silenciosas, como se pagar, organizar e garantir fossem suficientes para que o filho soubesse que era amado.

Nos dias seguintes, mantivemos aquela rotina.

Nem sempre Augusto chegava cedo, mas começou a mandar mensagem quando não conseguiria jantar. Não para mim.

Para Miguel.

A primeira dizia apenas: “Hoje vou chegar tarde. Amanhã tomo café com você.”

Miguel releu a mensagem três vezes.

Na terça, Augusto apareceu no quarto antes de dormir.

Na quarta, ajudou a montar um quebra-cabeça durante vinte minutos.

Na quinta, recebeu uma ligação no meio do jantar, olhou para a tela e a rejeitou.

Miguel fingiu não notar.

Eu notei.

Na sexta-feira, porém, às duas da tarde, Augusto ainda não havia aparecido na escola.

O Dia da Família começaria às duas e meia.

Miguel estava sentado ao meu lado no pátio, usando uma camiseta branca que ele mesmo havia escolhido.

— Ele não vem — disse.

— Ainda não sabemos.

— Sabemos.

Não tentei convencê-lo.

Às duas e vinte e oito, o portão se abriu.

Augusto entrou falando ao celular, encerrou a ligação antes de chegar até nós e guardou o aparelho no bolso.

Miguel não correu para ele.

Só ficou olhando.

— Desculpe o atraso — Augusto disse.

— Você veio.

— Eu disse que tentaria.

Miguel franziu a testa.

— Não. Você disse que tinha reunião.

Augusto respirou fundo.

— Então eu devia ter dito que faria o possível para estar aqui.

O professor chamou as famílias para dentro.

Miguel segurou minha mão.

Depois olhou para Augusto.

Hesitou.

Por fim, estendeu a outra.

Augusto segurou.

A atividade era simples. Cada criança deveria desenhar as pessoas que considerava parte de sua casa.

Miguel fez três figuras.

Uma pequena no meio.

Uma mulher com cabelos longos de um lado.

Um homem de terno do outro.

Em cima, desenhou um pinguim desproporcionalmente grande.

— Por que o pinguim? — perguntei.

— Porque foi assim que ela conseguiu falar comigo — explicou a Augusto.

Ele me olhou.

Dessa vez, havia algo diferente naquele olhar.

Não era gratidão formal.

Era reconhecimento.

Durante o trajeto de volta, Miguel dormiu no banco de trás.

Augusto ficou alguns minutos observando-o pelo retrovisor.

— Eu não sabia que ele lembrava de todas aquelas pessoas.

— Crianças lembram especialmente do que os adultos acham que elas não percebem.

Ele assentiu.

— Você tinha razão sobre a cláusula.

Virei o rosto para ele.

— Vai retirar?

— Vou pedir aos advogados que separem totalmente qualquer vínculo profissional do processo de casamento. A adaptação de Miguel não será mais condição para permanência ou saída.

Aquilo era mais do que eu esperava ouvir tão cedo.

— Obrigada.

— Não agradeça. Era uma cláusula ruim.

Foi a primeira vez que Augusto reconheceu um erro sem tentar justificá-lo.

Naquela noite, entretanto, a tranquilidade durou pouco.

Pouco antes das dez, recebi uma mensagem de uma amiga.

“Lívia, isso é você?”

Abaixo havia um link.

Abri.

Um portal de celebridades publicara uma matéria sobre a família Gouveia.

O título me fez gelar.

“HERDEIRO BILIONÁRIO SELECIONA MADRASTA PARA O FILHO COMO SE FOSSE FUNCIONÁRIA.”

Havia detalhes suficientes para que eu soubesse que alguém ligado ao processo seletivo tinha falado.

Mencionavam meus diplomas.

O contrato.

O salário.

Até o fato de eu ter sido escolhida depois de apresentar certificados.

Nenhuma fotografia de Miguel aparecia, mas meu nome estava ali.

Desci rapidamente.

Augusto já estava no escritório com dois membros da equipe de comunicação em uma chamada de vídeo.

— Tiramos você da casa por alguns dias — ele dizia quando entrei. — Reduzimos a exposição até isso esfriar.

Parei na porta.

— Tiramos quem?

Ele levantou os olhos.

— Lívia, eu ia falar com você.

— Quando?

Um ruído atrás de mim fez nós dois nos virarmos.

Miguel estava no corredor, de pijama.

O rosto dele parecia completamente acordado.

— Ela vai embora?

Augusto levantou-se.

— É só por alguns dias.

Miguel recuou um passo.

— Você prometeu que ninguém seria substituído.

— Ninguém está sendo substituído.

— Mas ela vai embora.

— É diferente.

O menino olhou para mim.

Toda a confiança que havíamos construído naquela semana pareceu vacilar.

Foi então que percebi que o verdadeiro problema nunca tinha sido a cláusula do contrato.

Era o hábito de Augusto de afastar pessoas sempre que alguma coisa fugia do controle.

E, dessa vez, eu não deixaria que Miguel pagasse por isso.

Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 4 👇📖

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *