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Minha melhor amiga insistiu em pegar minha garrafa no treinamento — e um sonho me fez desconfiar dela

Parte 3

Assim que o treinamento terminou naquela manhã, fui direto à coordenação com Manuela. Meu primeiro impulso tinha sido ligar para minha mãe e pedir que ela fosse me buscar, mas parei antes de tocar no nome dela na tela. Se eu simplesmente saísse do campus, Marina e o instrutor poderiam dizer que tudo não passava de imaginação minha.

Eu precisava registrar o que tinha acontecido.

A coordenadora ouviu minha história com uma expressão cada vez mais séria. Não mencionei o sonho; falei apenas dos fatos. A mentira de Marina sobre não ter comprado uma garrafa, a insistência para usar a minha, a regra incomum criada pelo instrutor, o resíduo na água e, por fim, o vídeo.

— Você bebeu? — ela perguntou.

— Não depois que a garrafa ficou na caixa.

— Sentiu algum sintoma?

— Não.

Ela pediu para ver o vídeo. Assistiu sem dizer nada e depois chamou uma funcionária da enfermaria do campus. Expliquei que eu não queria que ninguém abrisse a garrafa sem um procedimento registrado, porque, se realmente houvesse alguma substância ali, eu não queria dar margem para alguém dizer depois que eu mesma tinha contaminado a água.

A funcionária concordou.

A garrafa foi colocada em outra embalagem, identificada com horário e assinatura, e a coordenação registrou formalmente a ocorrência. Disseram que uma amostra poderia ser encaminhada a um laboratório conveniado, mas que o resultado não sairia naquele mesmo dia.

Foi a primeira vez que respirei um pouco melhor.

Quando saí da sala, Marina estava esperando no corredor.

— Então você foi me denunciar?

A pergunta me pegou de surpresa.

— Eu nem falei seu nome como culpada.

— Não precisa. Sei muito bem o que você está fazendo.

— E o que eu estou fazendo, Marina?

Ela abriu a boca, mas não respondeu.

Aquilo me atingiu com força.

Se ela não tivesse nada a esconder, como sabia exatamente do que eu desconfiava?

Manuela deu um passo para o meu lado. Marina olhou para ela e riu sem humor.

— Você chegou ontem na vida da Bia e agora acha que conhece ela melhor do que eu?

— Isso não tem nada a ver comigo — Manuela respondeu. — Eu só vi o vídeo.

Marina empalideceu.

— Que vídeo?

Dessa vez fui eu quem ficou em silêncio.

Ela percebeu o erro no mesmo instante.

— Ah, para, Bia. Você está transformando uma bobagem num escândalo.

— Uma bobagem é esquecer uma garrafa. Uma bobagem não é mentir sobre isso, insistir para pegar a minha e depois ficar desesperada porque eu não quis beber.

Os olhos dela se encheram de lágrimas.

Por quinze anos, eu tinha visto Marina chorar muitas vezes. Quando éramos crianças e ela caía da bicicleta, quando o cachorro dela morreu, quando brigou com a mãe, quando não passou na primeira tentativa para entrar no curso.

Sempre que Marina chorava, meu primeiro impulso era abraçá-la.

Naquele corredor, meus braços permaneceram ao lado do corpo.

— Você está mesmo escolhendo acreditar numa menina que acabou de conhecer em vez de mim? — ela perguntou.

— Estou escolhendo acreditar no que eu vi.

Ela enxugou o rosto com raiva.

— Você mudou desde que entrou aqui.

— Talvez eu só tenha começado a prestar atenção.

Marina foi embora sem olhar para trás.

Naquela tarde, o instrutor não apareceu no campo. Outro profissional assumiu o grupo e informou apenas que haveria uma substituição temporária por questões administrativas.

Ninguém explicou mais nada.

Mesmo assim, os comentários começaram.

Alguns colegas disseram que eu estava exagerando. Outros afirmaram que já tinham achado estranho o recolhimento das garrafas. Descobri que nenhum dos outros grupos fazia aquilo e que a orientação não constava no regulamento oficial do treinamento.

Também descobri outra coisa.

Aquela regra tinha sido enviada poucos minutos depois da mensagem em que eu recusara dividir minha garrafa com Marina.

Até então, eu não tinha prestado atenção aos horários.

Quando percebi, senti um arrepio.

Mostrei para a coordenadora.

Ela não fez nenhuma acusação, apenas anotou.

Minha mãe ligou no fim da tarde.

— Bia, você está bem? Sua voz está estranha.

Eu não queria contar, mas desabei.

Expliquei tudo.

Ela ficou em silêncio e depois disse:

— Eu vou aí agora.

— Não.

— Beatriz, isso pode ser sério.

— Eu sei. Mas eu já registrei a ocorrência. A coordenação está acompanhando e eu não bebi a água. Quero ficar aqui.

— Você não precisa provar nada para ninguém.

— Não estou tentando provar que sou forte, mãe. Estou tentando não fugir de uma coisa que fizeram comigo.

Ela respirou fundo.

— Então me liga se precisar de mim.

— Ligo.

Na manhã seguinte, fui ao treinamento com uma garrafa nova, ainda lacrada até o momento em que comecei a beber. Ninguém recolheu água de ninguém.

Marina não apareceu.

A ausência dela me trouxe uma sensação contraditória. Parte de mim se sentiu aliviada. Outra parte queria que ela aparecesse, olhasse na minha cara e dissesse que existia alguma explicação que não destruísse quinze anos de amizade.

Ela voltou dois dias depois.

Não falou comigo.

Na mesma tarde, a coordenação me chamou.

O resultado preliminar do laboratório tinha chegado.

A água continha um medicamento sedativo que não deveria estar ali.

A coordenadora escolheu as palavras com cuidado.

— Não estamos falando de uma quantidade que alguém deveria ingerir sem orientação médica, muito menos antes de atividade física intensa e sob calor.

Minha boca ficou seca.

— O que poderia ter acontecido?

— Sonolência intensa, perda de coordenação, queda de pressão, confusão, desmaio. Em uma situação de esforço e calor, o risco aumenta.

A cama de hospital do sonho surgiu inteira na minha memória.

As marcas no corpo daquela mulher.

Os braços presos.

A voz desesperada.

Por alguns segundos não consegui falar.

A coordenadora continuou:

— O instituto abriu um procedimento disciplinar e informou o caso às autoridades competentes. O instrutor permanecerá afastado enquanto isso for apurado.

— E a Marina?

— Ela também será ouvida.

Saí daquela sala tremendo, mas não de medo.

Era raiva.

Não uma raiva explosiva, e sim aquela que aparece quando uma verdade é grande demais para caber dentro da desculpa que você tentou inventar para alguém.

Naquela noite, Marina me mandou dezenas de mensagens.

Primeiro disse que não sabia de nada.

Depois afirmou que talvez alguém estivesse tentando prejudicá-la.

Em seguida, perguntou por que eu estava destruindo o futuro dela.

Não respondi.

Quase à meia-noite, chegou outra mensagem.

【Bia, por favor. Eu nunca quis que você se machucasse de verdade.】

Fiquei encarando aquelas palavras.

Ela acabara de admitir mais do que imaginava.

Tirei uma captura da conversa e acrescentei ao registro que já existia. Não respondi perguntando “então o que você queria?”. Não queria dar a ela a chance de apagar, reformular ou transformar aquilo em mais um jogo emocional.

No dia seguinte, Marina pediu para falar comigo no pátio.

Aceitei apenas porque Manuela estava perto e o local era aberto.

Marina parecia não ter dormido.

— Eu posso explicar.

— Então explica.

— Não era pra você parar no hospital.

Meu estômago se revirou.

— Você sabia o que tinha na água.

Ela começou a chorar.

— Eu sabia que ia te deixar mole, sonolenta. Só isso.

— “Só isso”?

— Eu não sabia que ele colocaria tanto.

Pela primeira vez, ela mencionou o instrutor como parte daquilo sem que eu precisasse perguntar.

— Então vocês estavam juntos.

Marina percebeu tarde demais.

Baixou a cabeça.

Aos poucos, a história começou a sair.

Nosso curso tinha um programa de mérito com poucas vagas para uma formação especial no semestre seguinte. As notas iniciais, frequência e avaliação do período de adaptação eram consideradas. Eu estava entre os primeiros colocados; Marina também queria a vaga.

Eu nunca tinha enxergado aquilo como uma disputa entre nós.

Para ela, aparentemente, era.

Marina vinha se envolvendo escondido com o instrutor desde antes do início das aulas. Ele não tinha poder para simplesmente entregar a vaga a ela, mas podia influenciar avaliações do treinamento e registrar faltas ou incapacidade para completar determinadas atividades.

O plano, segundo Marina, era me deixar sedada o suficiente para passar mal, perder parte do treinamento e receber uma avaliação negativa.

— Ele disse que seria só uma manhã — ela repetia. — Que você ia dormir, ficar em observação e voltar no dia seguinte.

— E você acreditou?

Ela apertou os olhos.

— Eu só queria uma chance de não ficar atrás de você mais uma vez.

A frase doeu mais do que eu esperava.

— Atrás de mim?

— Desde criança é sempre você. Sua mãe pode pagar tudo. Você tira nota boa. Os professores gostam de você. Quando a gente entrou no mesmo curso, todo mundo começou a falar de você de novo.

— E durante quinze anos você me chamou de melhor amiga.

— Eu era sua amiga.

— Era?

Marina não respondeu.

Naquele instante entendi que a traição não tinha começado naquela manhã no campo.

Aquela manhã só tinha revelado uma coisa que ela alimentava havia muito tempo.

Dias depois, fui chamada para prestar depoimento no procedimento interno.

A gravação, as mensagens, os horários das comunicações e o laudo da água já estavam reunidos. A instituição também tinha confirmado que o instrutor não possuía autorização para criar a regra de recolhimento das garrafas.

Eu entrei na sala sabendo que ainda não conhecia todos os detalhes.

Marina estava do outro lado da mesa.

O instrutor, mais distante.

Ele dizia que nunca tinha colocado substância nenhuma na minha água.

Marina olhava para as próprias mãos.

Até que a responsável pela apuração perguntou diretamente quem tinha sugerido que minha garrafa fosse adulterada.

O silêncio durou alguns segundos.

Então Marina levantou a cabeça.

Os olhos dela encontraram os meus.

— Fui eu.

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