Home

Na manhã em que fui promovida a chefe da cozinha, meu patrão me entregou o avental do sobrinho dele e pediu que eu ensinasse tudo antes de ele assumir meu cargo

Parte 3

Na manhã seguinte, cheguei às oito, exatamente no horário da minha escala. César me contou que o jantar tinha atrasado, duas mesas devolveram acompanhamentos frios e Álvaro acabara ajudando a levar pratos porque o salão ficou congestionado.

Não senti satisfação. Eu conhecia meus colegas e sabia que eles tinham trabalhado dobrado. Mas também não senti a velha culpa que costumava me fazer assumir problemas criados por decisões de outras pessoas.

Bruno apareceu pouco depois, com olheiras e uma pasta debaixo do braço.

— Ontem foi ruim — disse.

— Eu soube.

— Meu tio acha que foi porque você saiu.

— E você acha?

Ele apoiou as mãos na bancada.

— Acho que foi porque ele me colocou para comandar uma rotina que eu ainda não conheço.

A resposta era simples, mas eu respeitei o fato de Bruno conseguir dizê-la.

Durante a manhã, trabalhamos lado a lado. Eu fiz minhas tarefas, corrigi dois erros técnicos e expliquei um procedimento de segurança que qualquer cozinheiro novo precisava saber. Quando ele tentou entrar na parte de escala e compras, lembrei nosso limite.

— Não estou fazendo isso para prejudicar você.

— Eu sei.

— Estou fazendo porque, se eu continuar entregando todas as responsabilidades sem exigir nenhum reconhecimento, daqui a seis meses vou estar fazendo seu trabalho e recebendo pelo meu.

Bruno fechou a pasta.

— Faz sentido.

Na hora do almoço, Álvaro apareceu menos falante do que de costume. Observou o serviço durante quase meia hora e, quando percebeu que Bruno precisava confirmar comigo várias decisões, chamou o sobrinho para conversar.

Não ouvi o que disseram.

Vi apenas Bruno voltar vermelho, abrir a geladeira com força demais e começar a conferir etiquetas.

Esperei alguns minutos antes de perguntar se estava tudo certo.

— Ele disse que eu preciso parar de agir como aluno.

— E o que você respondeu?

— Que talvez ele devesse parar de agir como se uma função viesse junto com sobrenome.

Olhei para ele.

— Isso foi entre vocês. Não me coloque no meio.

— Não estou colocando. Só estou cansado de parecer o vilão de uma decisão que não foi minha.

Eu entendia. Também estava cansada de transformar Bruno no rosto de um problema que existia antes de ele chegar.

O verdadeiro incômodo de Álvaro não era descobrir quem sabia tocar a cozinha. Ele já sabia. O problema era admitir que o conhecimento que mantinha o restaurante funcionando tinha sido construído por uma funcionária que ele ainda enxergava como a auxiliar de nove anos atrás.

Naquela noite, em casa, tirei uma caixa de papéis da parte alta do guarda-roupa.

Não havia nenhum documento mágico ali. Só recibos, certificados de cursos curtos que eu fizera ao longo dos anos, cadernos de receitas e um envelope onde eu guardava parte das economias.

Marina sentou no chão ao meu lado.

— Está procurando o quê?

— Coragem em papel.

Ela riu.

— Achou?

— Ainda não.

Eu tinha pouco mais de quatro meses de despesas guardadas. Não era dinheiro suficiente para fazer loucura, mas era mais do que eu imaginava. Durante anos, eu havia economizado para emergências e nunca considerara que a emergência pudesse ser precisar escolher a mim mesma.

Marina pegou um dos meus cadernos.

— Você já pensou em procurar outro restaurante?

— Já.

— E?

— Tenho medo de sair de um lugar onde conheço todo mundo e começar de novo aos quarenta e três.

Ela passou os dedos pelas anotações.

— Você começou aqui lavando folha. Hoje ensina o futuro chefe.

A frase ficou comigo.

No domingo, abri anúncios de vagas no celular.

Não pedi demissão. Não fiz promessa de abrir restaurante próprio. Não transformei indignação em plano impossível.

Atualizei meu currículo.

Foi mais difícil do que deveria.

Escrever “controle de estoque”, “desenvolvimento de cardápio”, “treinamento de equipe” e “planejamento de produção” parecia estranho porque durante muito tempo eu tratara essas coisas como pequenas ajudas. Ao colocá-las numa página, vi pela primeira vez o tamanho do trabalho que eu mesma tinha diminuído.

Enviei o currículo para quatro restaurantes e uma empresa de refeições corporativas.

Na segunda-feira, Álvaro me chamou ao escritório.

— Soube que você está procurando emprego.

— Eu não contei isso para ninguém daqui.

— Recife não é tão grande nesse meio.

— Então você já sabe.

Ele caminhou pela sala.

— Depois de tudo que construímos, você vai embora por causa de um título?

A pergunta me feriu de um jeito diferente.

— Não é por causa de um título. É porque você me deu o título quando precisava de mim e tirou quando sua família entrou pela porta.

— Eu não tirei nada.

— Álvaro, você anunciou para todos que eu era chefe. Quatro dias depois, colocou no quadro que eu era cozinheira líder. Não faça de conta que as palavras não significam nada só porque foi você quem escreveu.

Ele puxou uma cadeira.

— Senta. Vamos resolver isso.

Fiquei em pé.

— Pode falar.

— Dou um aumento de quinze por cento. Você continua liderando a operação e Bruno cuida da parte administrativa.

Eu fiz a pergunta que ele sempre evitava.

— Quem é o chefe da cozinha?

Ele demorou.

— Isso precisa mesmo ser tão importante?

— Precisa.

Seu silêncio respondeu.

— Então não estamos resolvendo nada.

Saí antes que ele transformasse dinheiro em substituto de respeito.

Na quarta-feira, recebi uma ligação da empresa de refeições corporativas. Fiz a entrevista na manhã seguinte, durante minha folga.

Era um cargo de supervisão de produção. O salário inicial ficava pouco acima do que eu recebia no restaurante, com horário mais previsível, mas eu teria de recomeçar num ambiente completamente diferente.

Não saí de lá comemorando.

Saí pensando.

Eu gostava do Quintal da Ilha. Gostava do ritmo, dos pratos, da equipe e até daquela cozinha apertada que me dera tanto trabalho. O problema era que eu tinha confundido amar o lugar com dever aceitar qualquer condição para permanecer nele.

Na sexta-feira, Bruno me encontrou no corredor.

— Recebi uma proposta do meu tio.

— Que proposta?

— Ele quer me registrar como chefe no próximo mês.

Esperei.

— E você vai aceitar?

— Não desse jeito.

Ele falou sem heroísmo, quase cansado.

— Eu disse que aceito trabalhar aqui, aprender e assumir responsabilidades compatíveis com o que eu sei. Mas não vou colocar meu nome num cargo enquanto você estiver fazendo o trabalho.

Aquilo não me devolvia o que Álvaro havia tirado. Bruno não tinha poder para corrigir tudo. Mas sua recusa eliminava a desculpa mais confortável do tio: dizer que aquilo era inevitável por causa da família.

— Obrigada por ser claro — falei.

— Você vai embora?

— Ainda não decidi.

Naquela mesma tarde, Álvaro reuniu nós dois.

Joana e César continuaram trabalhando. Não era uma assembleia, nem uma cena pública. Era apenas uma mesa de escritório com três cadeiras e um homem que, pela primeira vez desde o anúncio, parecia perceber que não conseguiria fazer a situação desaparecer pelo cansaço.

— Bruno não quer assumir — disse.

— Eu sei.

— E você recebeu outra proposta.

— Recebi.

Ele cruzou os braços.

— O que você quer, Luciana?

Eu poderia ter respondido na hora. Durante nove anos, tinha imaginado aquele momento como uma vitória simples: alguém ofereceria o cargo e eu aceitaria.

Mas já não era simples.

Eu queria salário justo, autoridade clara e respeito pelo trabalho. Também queria saber se ficaria porque escolhi ou porque ainda tinha medo de sair.

Por isso, fiz algo que Álvaro não esperava.

— Quero até segunda-feira para decidir se ainda quero trabalhar para você.

A Parte 4 já está nos comentários desta publicação 👇📖 Se ela não aparecer, abra todos os comentários.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *