Aos 58 anos, voltei à escola noturna para terminar o ensino médio; na terceira semana, minha filha pediu que eu largasse o curso para cuidar do meu neto todas as noites.
Parte 3
No dia seguinte, Larissa chegou às sete da manhã, antes de eu começar a costurar. Trazia dois pães de queijo numa sacola e aquele jeito prático que assumia quando queria falar de algo difícil sem transformar a conversa numa tempestade.
— Pensei em algumas opções — disse, abrindo um papel dobrado sobre a mesa.
Sentei diante dela.
No papel estavam os dias da semana. Terça, quinta e sexta tinham o nome de Rafael. Segunda estava escrito “mãe?”, com um ponto de interrogação grande. Quarta dizia “eu”.
— Como você vai ficar com o Davi na quarta trabalhando? — perguntei.
— Pedi para mudar minha folga.
— E aceitaram?
— Em teste por dois meses. Vou trabalhar sábado no lugar.
Olhei para ela surpresa.
Até então, Larissa tratava o horário da farmácia como se fosse uma lei da natureza. Descobrir que havia alguma margem de negociação não me deixou com raiva. Só confirmou que, enquanto minha disponibilidade parecia garantida, ela não tinha precisado procurar todas as alternativas.
— E sexta com o Rafael?
— Ele conseguiu ajustar.
— Então por que segunda tem meu nome?
Ela sorriu sem graça.
— Porque achei que talvez você quisesse ficar com seu neto uma noite por semana.
— Quero.
A resposta saiu fácil.
Era diferente escolher.
Combinamos que Davi ficaria comigo às segundas, exceto quando eu tivesse prova, atividade especial ou precisasse ir à escola por outro motivo. Larissa perguntou se eu poderia avisar com antecedência. Eu disse que sim.
Não houve abraço cinematográfico.
Não houve pedido de desculpas perfeito.
Houve uma agenda rabiscada sobre uma mesa de fórmica e duas mulheres tentando desmontar um costume antigo sem saber exatamente como fazer.
Na semana seguinte, o arranjo funcionou.
Na outra, começou a dar errado.
Rafael recebeu uma mudança temporária no trabalho e avisou que não conseguiria buscar Davi numa quinta-feira. Larissa me ligou perto das cinco.
— Mãe, eu sei do nosso combinado. Só estou perguntando.
Parei a máquina.
Aquilo já era alguma coisa.
— Hoje eu tenho apresentação de história.
Ela ficou em silêncio.
— Então tá. Vou resolver.
Quase me ofereci para faltar.
O impulso veio inteiro, conhecido, confortável. Eu poderia salvar aquela noite e voltar ao papel que desempenhava tão bem.
Em vez disso, respirei.
— Se ficar impossível, me liga de novo. Mas tenta outras opções primeiro.
— Tá bom.
Duas horas depois, quando eu estava prestes a entrar na escola, ela mandou uma mensagem dizendo que conseguira trocar o turno com uma colega e compensaria no domingo.
Senti orgulho dela.
E senti vergonha por ter duvidado que conseguiria.
Na sala, apresentei um trabalho sobre a construção de Goiânia. Minha voz tremeu no começo. Eu segurava três folhas impressas e tinha certeza de que todo mundo perceberia o quanto minhas mãos estavam suadas.
Depois de dois minutos, parei de olhar para o papel.
Contei o que tinha estudado.
Quando terminei, meus colegas bateram palmas. Nada extraordinário aconteceu. Nenhuma porta se abriu no teto. Nenhuma pessoa apareceu oferecendo uma nova vida.
Mesmo assim, no ônibus de volta para casa, sorri sozinha.
Aquela mulher que falara diante da turma era alguém que eu não conhecia direito.
Eu gostava dela.
Em casa, encontrei uma foto de Davi no celular. Larissa tinha enviado. Ele estava fazendo macarrão com ela, usando uma toalha de prato como avental.
A legenda dizia: “Sobrevivemos sem você.”
Eu ri.
Respondi: “Milagre.”
Pouco a pouco, a tensão diminuiu.
Mas não desapareceu.
O problema reapareceu de outro jeito numa segunda-feira, quase dois meses depois.
Davi estava comigo, fazendo um desenho, quando perguntou:
— Vó, por que minha mãe ficou brava porque você estuda?
Criança tem uma habilidade irritante de perguntar justamente o que os adultos tentam reorganizar em silêncio.
— Porque ela estava preocupada com quem ficaria com você.
— Mas eu tenho meu pai.
— Tem.
Ele continuou desenhando.
— Ela acha que você não gosta mais da gente?
Senti um aperto no peito.
— Não. De onde você tirou isso?
— Ela falou uma vez que antes você fazia tudo por ela.
Fiquei quieta.
Davi ergueu os olhos.
— Você fazia?
— Muita coisa.
— E agora não faz?
Sorri.
— Agora ela sabe fazer muita coisa sozinha.
Ele pareceu satisfeito com a resposta.
Mais tarde, depois que Larissa chegou para buscá-lo, pedi que ela ficasse um pouco.
— Davi acha que você estava com medo de eu não gostar mais de vocês.
Ela travou.
— Eu nunca falei isso.
— Não com essas palavras.
Davi já tinha descido com Rafael, que esperava no carro. Ficamos só nós duas.
— Mãe, ele é criança. Mistura as coisas.
— Eu sei. Mas criança também percebe as coisas.
Larissa sentou no braço do sofá.
— O que você quer que eu diga?
— O que você sentiu quando eu comecei a dizer não.
Ela mexeu na alça da bolsa.
— Raiva.
— Só?
— Raiva, medo, sei lá.
Esperei.
Depois de alguns segundos, ela continuou:
— Eu passei a vida inteira achando que você era a única pessoa que nunca ia colocar outra coisa na minha frente. Aí, quando você começou a escola, parecia ridículo eu me sentir assim. Eu tenho 34 anos. Mas foi isso.
Eu me sentei ao lado dela.
De repente, eu conseguia ver um pedaço da história que minha filha nunca tinha dito.
O pai dela saiu de casa quando Larissa tinha quatro anos. Não desapareceu completamente, mas foi se tornando uma presença de aniversários e fins de semana incertos. Eu compensei tudo tentando ser absolutamente confiável.
Se Larissa precisava, eu estava.
Se chamava, eu atendia.
Se algo dava errado, eu resolvia.
Sem perceber, transformei minha disponibilidade numa promessa.
E ela cresceu acreditando nela.
— Eu devia ter ensinado uma coisa diferente — falei.
— O quê?
— Que alguém pode amar você e ainda ter limites.
Larissa baixou a cabeça.
— Eu também devia ter aprendido sem precisar você me ensinar.
— Filha, quase ninguém aprende isso fácil.
Ela começou a chorar, mas discretamente, enxugando o rosto com as costas da mão como fazia desde menina.
— Quando você falou que tinha passado quarenta anos deixando as coisas para depois, eu fiquei com raiva porque parecia que eu estava no meio dessas coisas.
— Você estava no meio da minha vida. Não era a mesma coisa.
— Eu sei agora.
Segurei a mão dela.
— Eu não quero recuperar quarenta anos. Não dá. Quero só não entregar os próximos vinte antes de vivê-los.
Larissa soltou uma risada entre lágrimas.
— Vinte?
— Pretendo dar trabalho até os oitenta.
Ela encostou a cabeça no meu ombro.
Ficamos assim por um tempo.
Achei que aquela conversa tivesse resolvido o que faltava.
Não tinha.
Na semana seguinte, recebi da escola um formulário para inscrição numa seleção interna. Quem concluísse o ensino médio poderia concorrer a vagas gratuitas num curso técnico de administração oferecido por uma instituição parceira.
Levei o papel para casa.
Eu não precisava daquilo.
Minha costura pagava as contas.
Minha intenção inicial era apenas terminar a escola.
Mesmo assim, passei três dias olhando para o formulário.
Administração.
Eu fazia orçamento, comprava material, cobrava cliente, calculava custo e organizava encomenda havia décadas sem nunca ter estudado nada disso de verdade. Talvez eu pudesse aprender a transformar minha pequena costura num negócio mais organizado.
Na sexta-feira, contei a Larissa.
Esperava apoio imediato.
Ela ficou séria.
— Mas esse curso também é à noite?
— Três noites por semana.
— Por quanto tempo?
— Um ano e meio.
Ela abaixou os olhos para o formulário.
A velha tensão apareceu de novo, mas diferente. Menor. Mais consciente.
— E depois da escola você quer continuar?
— Acho que sim.
— Então isso não era só para terminar o ensino médio.
— Eu também não sabia que queria mais.
Larissa respirou fundo.
Eu esperei.
Ela dobrou o formulário e o devolveu.
— Então se inscreve.
— Tem certeza?
— Não. Mas acho que certeza não é o requisito.
Sorri.
No domingo, preenchi a inscrição.
Duas semanas depois, soube que tinha sido selecionada para uma entrevista.
Cheguei à escola na noite marcada e encontrei Larissa e Davi me esperando na calçada.
— O que vocês estão fazendo aqui?
Minha filha levantou uma sacola.
— Trouxe seu jantar. Você saiu correndo e esqueceu.
Davi segurava uma cartolina enrolada.
— E eu fiz uma coisa.
— O quê?
Ele abriu a cartolina.
Em letras tortas, estava escrito: “VÓ ROSA, VAI DAR CERTO.”
Ri tão alto que duas pessoas na entrada olharam para nós.
Então vi Larissa.
Ela sorria, mas os olhos estavam molhados.
— Vai — disse. — A gente espera você sair.
Naquele instante, percebi que minha filha não estava apenas aceitando minha escolha.
Ela estava aprendendo a ficar ao meu lado sem precisar me puxar de volta.
Entrei para a entrevista carregando a cartolina de Davi debaixo do braço.
E, quando perguntaram por que eu queria aquela vaga, pela primeira vez não falei sobre o que deixei de fazer no passado.
Falei sobre o que ainda pretendia fazer dali para frente.
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