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Minha mãe ia embora sem mim — e ainda tentou levar o dinheiro e o ouro que meu pai havia guardado para mim

Parte 3

Meu pai se abaixou e me ergueu do chão.

Eu passei os braços ao redor do pescoço dele e enterrei o rosto em seu ombro. O cheiro de suor, chuva e estrada que normalmente faria minha mãe reclamar me pareceu a coisa mais segura do mundo.

— Ei, minha pequena… o que aconteceu? — ele perguntou.

Eu tentei responder, mas comecei a chorar.

Não era um choro bonito nem silencioso. Eu soluçava e apertava a camisa dele até meus dedos doerem. Na primeira vida, eu tinha passado dias tentando abraçar aquele homem sem conseguir tocá-lo. Agora sentia seus braços fortes me segurando.

Lucas olhou para minha avó.

— Cadê a Helena?

Dona Alzira respondeu com a naturalidade de quem comentava sobre o tempo:

— Foi embora.

O corpo do meu pai ficou rígido.

— Foi embora para onde?

— Brasília. Você sabia que ela tinha passado no vestibular.

— E deixou a Teté?

Minha avó franziu a testa.

— Ela disse que vem buscar a menina quando estiver instalada.

Meu pai baixou os olhos para mim.

Talvez tenha percebido o medo no meu rosto, porque a voz dele ficou diferente.

— Ela saiu sem acordar você?

Balancei a cabeça.

— Eu acordei antes.

— E por que você está abraçada nessa lata?

Só então Lucas reparou na antiga caixa de biscoitos que eu ainda carregava.

Eu me afastei o suficiente para olhar para ele.

— Mamãe achou onde você escondeu.

Meu pai não disse nada.

— Ela colocou na mala. Eu falei que era meu. A vovó mandou deixar.

A mandíbula dele se contraiu.

— Ela sabia onde estava?

— Sabia.

Lucas me colocou no chão e entrou no quarto.

Eu corri atrás.

Ele afastou o armário, verificou o esconderijo, abriu a lata e conferiu cada peça. Depois foi até a caixa onde guardava dinheiro.

Ficou alguns minutos contando.

Minha avó apareceu na porta.

— Não faça tempestade por causa disso, Lucas. Ela era sua esposa. Precisava de dinheiro.

— Eu não estou discutindo o dinheiro que ela usava para a casa.

Ele levantou a cabeça.

— Estou tentando saber quanto ela levou.

Dona Alzira ficou ofendida.

— Você vai acusar a mãe da sua filha de roubo?

— Eu ainda não acusei ninguém. Só estou contando.

Meu pai sempre tinha sido conhecido por falar alto quando se irritava. Naquele momento, porém, ele não gritou.

Isso deixou minha avó ainda mais desconfortável.

Lucas guardou o dinheiro restante e fechou a caixa.

— Ela levou mais do que a parte das despesas — disse. — Mas isso eu resolvo com ela. O que quero saber é por que vocês deixariam uma criança de quatro anos e meio aqui enquanto a mãe vai embora sem nem explicar direito.

— Ela estaria conosco — minha avó respondeu.

Eu estremeci.

Meu pai percebeu.

— Teté?

Aproximei-me dele.

— Eu posso dormir com você hoje?

Ele me pegou no colo imediatamente.

— Pode dormir comigo todas as noites que quiser.

Minha avó revirou os olhos.

— Você vai mimar essa menina.

Lucas virou-se lentamente.

— Se proteger uma criança de quatro anos é mimar, então eu vou mimar.

Naquela noite, ele me levou para o pequeno quarto dos fundos.

Antes de dormir, notei que ele ainda não tinha comido.

Aquilo apertou meu coração porque lembrei de outra vida, de outro Lucas, sentado diante de uma sepultura e esquecendo de cuidar do próprio corpo.

— Papai.

— Oi?

— Você tem que jantar.

Ele sorriu.

— Está mandando em mim agora?

— Tem.

— E se eu não obedecer?

Pensei um pouco.

— Eu fico brava.

Meu pai riu pela primeira vez desde que chegara.

Foi para a cozinha e comeu dois pratos do ensopado que minha tia tinha deixado.

Só depois voltou e se deitou ao meu lado.

No escuro, perguntei:

— Papai, você fez coisa ruim?

Ele entendeu imediatamente.

— Está perguntando da briga?

— A polícia levou você.

Lucas respirou fundo.

— Eu fiz uma coisa errada do jeito errado.

Então contou.

Um homem bêbado havia começado uma discussão perto da cooperativa e agredido um rapaz mais novo. Meu pai se meteu no meio. Poderia ter separado os dois e chamado ajuda.

Mas o homem o provocou.

Lucas perdeu a cabeça.

Bateu nele mais do que precisava.

O homem acabou no hospital.

— Eu não devia ter continuado depois que ele já não conseguia brigar — meu pai disse. — Mesmo quando a gente tem razão para defender alguém, não ganha direito de fazer tudo.

— Você vai voltar para a cadeia?

— Não sei.

Ele não mentiu para me tranquilizar.

— O homem está fora de perigo. Algumas pessoas viram o que aconteceu. Vou responder pelo que fiz e pagar parte do tratamento. Mas me deixaram voltar enquanto a situação é resolvida.

Aproximei meu rosto do braço dele.

— Não briga mais.

Meu pai soltou um suspiro.

— Eu vou tentar aprender a resolver as coisas sem usar os punhos.

— Promete?

— Prometo tentar de verdade.

Para mim, aquilo bastava.

Nos dias seguintes, Lucas começou a mudar nossa vida rapidamente.

Não com milagres.

Não porque alguém rico apareceu para ajudá-lo.

Ele simplesmente tomou decisões que havia adiado por tempo demais.

Primeiro retirou do quarto dos meus avós tudo o que pertencia a ele e a mim.

Depois alugou um pequeno imóvel na entrada da cidade, onde havia espaço para dois quartos nos fundos e uma garagem grande na frente.

A garagem virou oficina.

Na parede, ele pendurou ferramentas velhas que vinha acumulando havia anos.

No primeiro dia, apareceu um homem com um rádio quebrado.

No segundo, um agricultor trouxe uma bomba d’água.

Depois veio um trator.

Mais tarde, um carro.

Lucas sabia fazer tantas coisas que rapidamente começou a trabalhar de manhã até a noite.

Mesmo assim, sempre parava para almoçar comigo.

Eu fiscalizava.

— Come tudo.

— Sim, senhora.

Minha tia ria quando ouvia.

Dona Alzira, por outro lado, dizia que meu pai estava exagerando.

— Você está se afastando da família por causa de uma mulher que já foi embora.

Lucas corrigiu:

— Não é por causa da Helena. É por causa da minha filha.

Ele não contou a ninguém sobre minha primeira vida.

Eu também não saberia como explicar.

Apenas dizia que tinha sonhado que ficava sozinha.

Talvez para uma criança aquilo fosse suficiente.

Duas semanas depois, chegou uma carta de Brasília.

Era de minha mãe.

Meu pai leu sentado à mesa da oficina.

Helena dizia que havia conseguido um quarto simples perto da universidade, mas precisava pagar matrícula, livros e outras despesas.

Também dizia que o dinheiro levado não seria suficiente.

No final, escreveu:

“Quando minha situação estiver melhor, vou buscar a Teté.”

Meu pai leu duas vezes.

Depois pegou papel e caneta.

Não escreveu com raiva.

Disse que ela tinha direito de seguir a vida que escolhesse e que ele não tentaria impedir seus estudos.

Informou quanto dinheiro havia desaparecido da casa e pediu que ela especificasse o que considerava dela, para que os dois acertassem a separação corretamente.

Sobre a lata de ouro, foi direto:

“Aquilo foi separado para Teresa e continuará pertencendo a ela.”

E sobre mim escreveu:

“Você não pode deixar uma criança para trás e decidir sozinha que vai buscá-la quando for conveniente. Qualquer definição sobre onde Teresa vai morar precisa levar em conta a segurança e a rotina dela.”

Meses começaram a passar.

Meu pai respondia aos procedimentos relacionados à briga.

O homem ferido se recuperou.

Lucas pagou parte dos custos médicos conforme havia assumido e precisou comparecer mais de uma vez à cidade para resolver o caso.

Ele nunca fingiu que tinha sido inocente.

— Eu errei — dizia. — Agora resolvo o que eu mesmo causei.

Talvez por isso eu o admirasse ainda mais.

Minha mãe enviava cartas de vez em quando.

Algumas eram para ele.

Outras para mim.

Eu ainda não lia direito, então meu pai lia em voz alta quando eu pedia.

Helena perguntava se eu estava comendo, se tinha adoecido, se lembrava dela.

Eu lembrava.

Claro que lembrava.

Mas sentir saudade não apagava a imagem dela fechando a mala.

Quase quatro meses depois, minha mãe voltou.

Eu estava sentada numa cadeira perto da oficina, desenhando numa folha usada, quando vi Helena aparecer no portão.

Estava diferente.

Roupa de cidade.

Cabelo bem arrumado.

Uma bolsa nova pendurada no ombro.

Corri alguns passos por impulso.

Depois parei.

Ela abriu os braços.

— Teté.

Eu fiquei onde estava.

A expressão de minha mãe se desfez um pouco.

Meu pai saiu da oficina limpando as mãos num pano.

— Helena.

— Precisamos conversar.

— Pode falar.

Ela olhou para mim.

— A sós.

Lucas respondeu:

— Se o assunto for nossa filha, ela não precisa ouvir tudo. Mas também não vou mandar a Teté embora como se ela não existisse.

Minha mãe respirou fundo.

— Eu vim buscar minhas coisas.

— As suas estão guardadas.

— E o restante do dinheiro.

— Podemos acertar isso.

— E a caixa.

Meu pai ficou imóvel.

— A caixa é da Teté.

— Lucas, não seja ridículo. Aquilo vale muito dinheiro. Você não pode esconder patrimônio e simplesmente dizer que pertence a uma criança.

— Então vamos registrar o que existe e resolver corretamente.

— Eu preciso desse dinheiro agora.

— Precisar não transforma o que é da sua filha em seu.

Minha mãe perdeu a paciência.

— Você sempre foi assim. Controlador. Acha que porque consegue sobreviver no braço pode mandar em todo mundo.

Meu pai respondeu sem levantar a voz:

— Você tinha o direito de ir embora de mim, Helena.

Ela se calou.

— Tinha o direito de não me amar. Tinha direito de estudar. Tinha direito de querer outra vida. O que você não tinha era o direito de abandonar a Teté dormindo e levar aquilo que eu havia separado para ela.

Minha mãe olhou para mim.

Seus olhos ficaram úmidos.

— Eu não abandonei você. Eu ia voltar.

Perguntei:

— Por que não me acordou?

Ela abriu a boca.

Nenhuma palavra saiu.

— Eu teria ido com você se você tivesse pedido — continuei. — Por que você não perguntou se eu queria ir?

— Você era muito pequena.

— Eu continuo pequena.

Meu pai tocou meu ombro.

Minha mãe passou a mão pelo rosto.

— Eu não tinha condições de levar uma criança para aquele quarto. Eu precisava me organizar.

— Então devia ter conversado comigo — Lucas respondeu. — Não decidido tudo sozinha.

Helena endureceu novamente.

— Talvez eu tenha decidido porque sabia que você tentaria me impedir.

— De estudar? Não.

— De levar a Teté.

— Se você quisesse levá-la para um lugar seguro e tivéssemos conversado como pais, seria outra história.

Minha mãe retirou alguns papéis da bolsa.

— Então vamos conversar agora.

Meu pai pegou os documentos, mas não os abriu imediatamente.

— O que é isso?

— Quero formalizar tudo. Separação. Dinheiro. E a guarda da Teresa.

Meu estômago apertou.

Helena continuou:

— Eu estou estudando, tenho família em Brasília e uma vida organizada. Você acabou de sair de uma delegacia por quase matar um homem numa briga. Se você se recusar a me entregar a Teté, eu vou pedir a guarda dela.

Olhei para meu pai.

Na vida anterior, uma frase assim teria feito Lucas explodir.

Mas ele apenas dobrou os papéis com cuidado, colocou-os sobre a mesa e respondeu:

— Então vamos resolver do jeito certo.

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