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Levei meu sobrinho à reunião e pedi que ele me chamasse de mãe — meu ex apareceu logo depois

Parte 3

— Caio!

Minha voz ecoou pelo corredor.

Ele se virou devagar. Quando me viu atrás dos dois policiais, levou alguns segundos para compreender por que havia tanta gente olhando para ele.

Lucas imediatamente correu até mim.

Abaixei e o abracei com tanta força que ele reclamou.

— Tia, eu tô bem.

Fechei os olhos.

Então abri.

E percebi.

Os policiais perceberam.

O segurança percebeu.

Caio, mesmo bêbado, também percebeu.

Lucas levou as duas mãos à boca.

— Ih.

Um dos policiais franziu a testa.

— Tia?

Eu queria desaparecer dentro do concreto do estacionamento.

Caio tentou se levantar depressa demais, perdeu o equilíbrio e precisou apoiar a mão na parede.

— Você chamou ela de quê?

Lucas olhou para mim como quem buscava autorização para mentir mais um pouco.

Cruzei os braços.

— Pode falar a verdade.

O menino respirou aliviado.

— Ela é minha tia. Minha mãe de verdade é a irmã dela. Hoje ela pediu para eu chamar ela de mãe porque…

— Lucas.

— Ué, você falou para falar a verdade.

O policial mais velho virou o rosto para esconder um sorriso.

Caio ficou completamente parado.

Curiosamente, foi naquele instante que pareceu ficar mais sóbrio do que durante toda a noite.

— Porque o quê? — perguntou.

Lucas fez uma careta.

— Porque você vinha na festa.

Fechei os olhos por meio segundo.

Perfeito.

Meu sobrinho acabara de explicar meu plano inteiro diante do meu ex, de dois policiais e de um segurança.

Caio passou a mão pelo rosto.

— Então ele não é seu filho?

— Não.

— Você não é casada?

— Uma coisa não tem necessariamente relação com a outra.

— Luana.

— Não sou casada.

Ele abriu a boca, mas não saiu nada.

O policial interrompeu antes que aquilo virasse uma discussão.

— O menino está machucado?

Revirei Lucas dos pés à cabeça.

— Não.

— Esse homem encostou em você? Tentou levar você para algum lugar?

Lucas apontou para Caio.

— Não. Eu saí pela porta errada procurando minha tia e não sabia voltar. Ele me encontrou perto da rampa, perguntou onde estava minha mãe e eu falei que ela estava lá dentro.

Olhei para Caio.

— E depois?

— Ele me trouxe para cá porque disse que não queria andar perto dos carros. Aí começou a perguntar onde estava meu pai.

Caio fechou os olhos, claramente desejando que o menino parasse de falar.

Lucas, porém, havia herdado da nossa família a incapacidade de reconhecer quando o silêncio era a melhor opção.

— Eu falei que meu pai estava em casa vendo futebol. Aí ele perguntou por que eu tinha chamado a tia Luana de mãe. Eu disse que era segredo. Depois ele começou com esse negócio de eu chamar ele de pai.

O policial pigarreou.

— Certo.

Olhei para Caio.

— Você está bêbado no estacionamento insistindo para uma criança chamar você de pai. Tem ideia da cena?

— Tenho agora.

— Eu passei os últimos quinze minutos achando que meu sobrinho tinha desaparecido.

A culpa tomou conta do rosto dele.

— Eu encontrei o Lucas sozinho. Estava levando ele de volta.

— Então deveria ter procurado um segurança.

— Eu procurei. Não tinha ninguém na porta lateral.

O segurança confirmou com um gesto constrangido que aquela área realmente ficava sem funcionário fixo depois de determinado horário.

Isso não apagava o absurdo do restante da situação, mas ao menos deixava claro que Caio não havia levado Lucas embora.

Os policiais conferiram as imagens e os relatos. Caio aparecia chegando sozinho até o menino, afastando-o da área por onde os carros circulavam e tentando voltar para o prédio.

Depois disso, aparentemente, sua inteligência terminava.

— Senhor — disse um dos policiais —, ajudar a criança foi correto. Mas beber desse jeito e depois ficar conversando sozinho com um menor que não conhece você não é uma boa ideia.

Caio assentiu.

— Concordo.

— E não dirija.

— Vim de aplicativo.

— Ótimo.

Minha irmã chegou cerca de vinte minutos depois.

Camila saiu do carro praticamente correndo e abraçou Lucas antes mesmo de falar comigo.

— Você quase me matou do coração!

— Desculpa, mãe.

Ela olhou para mim.

— E você.

— Eu sei.

— Depois a gente conversa.

Conhecendo minha irmã, aquilo era mais ameaçador que qualquer grito.

Caio permaneceu alguns metros afastado. Quando Camila entendeu o que acontecera, passou da preocupação para a incredulidade.

— Então deixa eu ver se entendi. Minha irmã levou meu filho para uma reunião fingindo que era mãe dele, o ex dela ficou com ciúme, bebeu demais e depois tentou convencer o menino a chamar ele de pai?

Lucas ergueu a mão.

— Foi mais ou menos isso.

Camila respirou fundo.

— Adultos.

Aquela única palavra continha todo o desprezo de uma mãe por quatro pessoas que não sabiam administrar as próprias emoções.

Depois que Lucas entrou no carro dela, Caio se aproximou de mim.

— Luana.

— Não.

— Eu só quero perguntar uma coisa.

— Amanhã.

Ele ficou surpreso.

— Amanhã?

— Você bebeu demais. Eu estou com raiva demais. Não existe conversa inteligente possível agora.

Caio assentiu lentamente.

— Justo.

Comecei a caminhar em direção ao estacionamento.

— Mas por que fez isso?

Parei.

Não precisava perguntar a que ele se referia.

— Porque ouvi que você viria.

— Isso eu já entendi. Quero saber por que você precisava que eu achasse que tinha se casado e tido um filho.

Virei para ele.

Talvez eu pudesse inventar alguma resposta elegante.

Não encontrei nenhuma.

— Porque eu não queria que você achasse que eu fiquei parada depois que terminamos.

A expressão de Caio mudou.

Pela primeira vez naquela noite, não havia sarcasmo nela.

— Eu nunca achei isso.

— Ótimo.

— Eu achei que você tivesse me esquecido.

Ri sem humor.

— E existe diferença?

— Para mim existe.

Não respondi.

Caio deu um passo, mas manteve distância.

— Posso te ligar amanhã?

— Não sei se ainda tenho seu número.

— Eu ainda tenho o seu.

Aquilo me incomodou de uma maneira inesperada.

— Você nunca ligou.

Ele desviou os olhos.

— Eu sei.

Aquela resposta simples pesou mais do que qualquer justificativa.

Cinco anos antes, Caio e eu não terminamos depois de uma traição ou de uma grande explosão. Nosso relacionamento foi se desgastando de uma maneira menos dramática e, talvez por isso mesmo, mais difícil de aceitar.

Ele estava começando a crescer na carreira e cancelava compromissos com frequência. Eu dizia que precisava de presença; ele respondia que eu precisava compreender aquela fase.

Num domingo, depois de esperar quase duas horas por ele num restaurante, discutimos pelo telefone.

Eu disse que não queria continuar sendo encaixada nos espaços livres da agenda dele.

Caio respondeu:

— Se você acha que estar comigo é tão ruim, talvez seja melhor a gente terminar.

Eu perguntei:

— É isso que você quer?

Ele demorou alguns segundos.

— Talvez seja.

Desliguei.

Ele não me procurou naquela noite.

Nem no dia seguinte.

No terceiro dia, bloqueei o número dele.

Durante anos, contei a mim mesma que aquilo provava que eu tinha feito a escolha certa.

Mas também guardei uma pergunta que nunca admiti em voz alta: por que ele não tinha ido atrás de mim?

Naquela madrugada, sentado na calçada do centro de eventos enquanto esperava o carro de aplicativo, Caio finalmente respondeu sem que eu precisasse formular a pergunta.

— Eu achei que você tinha cansado de mim de verdade.

— E sua solução foi não fazer absolutamente nada?

— Não. Minha solução foi ser orgulhoso e idiota.

Fiquei imóvel.

— Você disse que talvez fosse melhor terminar.

— Eu disse.

— Então não tente transformar isso em mal-entendido.

— Não estou tentando.

A voz dele estava mais firme agora.

— Eu estava com raiva, me sentia pressionado e falei uma coisa cruel porque queria que você recuasse. Quando você não recuou, fiquei esperando você ligar. Depois soube por um amigo que você tinha me bloqueado e fiquei ainda mais orgulhoso.

— Que história bonita.

— Não é bonita. É vergonhosa.

Aquilo me impediu de responder imediatamente.

Caio apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Durante muito tempo eu dizia para mim mesmo que você tinha escolhido ir embora. Era mais fácil do que admitir que fui eu quem empurrou você para fora.

— Cinco anos, Caio.

— Eu sei.

— Cinco anos sem uma ligação.

— Eu sei.

— E hoje você me vê com uma criança e resolve beber até perder o bom senso?

Ele soltou o ar.

— Não tenho defesa para isso.

— Ainda bem.

— Quando ouvi o Lucas chamar você de mãe, senti uma coisa horrível.

— Ciúme?

— Também.

Ele ergueu os olhos.

— Mas principalmente a sensação de que eu tinha perdido cinco anos da sua vida e que não tinha direito nem de perguntar o que aconteceu nela.

Por alguns segundos, a raiva dentro de mim não desapareceu, mas mudou de lugar.

Eu ainda achava ridículo o que ele fizera.

Também continuava achando ridículo o que eu mesma havia feito.

Eu, uma mulher adulta, levara meu sobrinho para uma reunião apenas para provar alguma coisa ao homem que dizia ter superado.

Era difícil manter toda a superioridade moral diante daquela constatação.

— Nós dois fizemos papel de idiotas hoje — falei.

Caio arqueou uma sobrancelha.

— Você um pouco menos.

— Não tente ganhar pontos.

— Não estou.

O carro dele chegou.

Antes de entrar, Caio me encarou.

— Amanhã, quando eu estiver sóbrio, posso pedir desculpas direito para você e para o Lucas?

Pensei no menino contando aquela história para a família inteira pelos próximos vinte anos.

— Para o Lucas, você deve.

— E para você?

— Você pode pedir.

— E depois?

— Depois eu decido se quero ouvir qualquer outra coisa.

Ele assentiu.

Não sorriu.

Não tentou tocar em mim nem transformar aquela abertura mínima em promessa.

Entrou no carro e foi embora.

Eu ainda fiquei ali alguns minutos.

Minha intenção ao levar Lucas havia sido mostrar a Caio que eu tinha seguido em frente.

No fim da noite, a única coisa que consegui provar foi exatamente o contrário.

E, pela primeira vez em cinco anos, decidi que não queria mais fingir nem para ele, nem para mim mesma.

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