Meu marido expulsou meus pais do apartamento que eles pagaram e ainda decidiu entregá-lo à própria secretária
Parte 3
Fiquei parada no meio da sala com o telefone ainda encostado ao ouvido. Ricardo me observava a poucos metros, tentando descobrir quanto meu pai havia contado. Camila já não parecia dona da situação; segurava a própria bolsa contra o corpo e evitava encarar qualquer um de nós.
— Três semanas? — perguntei. — Por que você não me contou?
Meu pai demorou um pouco para responder.
— Porque você tinha acabado de sair de uma cirurgia, estava fraca e eu não sabia até onde aquilo ia. Eu queria ter certeza antes de colocar mais um problema nas suas costas.
— E o envelope?
— Eu trouxe quando fomos para São Paulo. Queria conversar com você depois que melhorasse. Mas hoje, quando Ricardo começou a nos tratar daquele jeito, entendi que talvez você precisasse ver tudo sem que ele tivesse tempo de preparar uma versão.
Ricardo se aproximou.
— Coloca seu pai no viva-voz.
— Não.
— Marina, isso envolve a minha empresa.
— A sua empresa?
A pergunta saiu antes que eu pensasse.
Olhei para o documento sobre a mesa.
— Parece que não é tão “sua” quanto você gosta de dizer.
Ele cerrou a mandíbula.
Meu pai continuou falando.
Anos antes, quando o Grupo Tavares ainda era uma empresa muito menor, Otávio Tavares enfrentara uma crise séria de caixa durante uma expansão mal planejada. Meu pai conhecia Otávio havia anos por causa de negócios na região de Campinas e decidiu investir na companhia.
Não tinha sido caridade.
Tinha sido um investimento formal, documentado, com aquisição de participação acionária.
Paulo recebeu 14% das ações em troca do aporte e preferiu permanecer fora da gestão diária. Continuou com suas próprias lojas, trabalhando normalmente, enquanto Otávio comandava o grupo.
— E por que esconder isso de mim? — perguntei.
— Eu não escondi por vergonha. Só nunca achei que meu investimento tivesse alguma coisa a ver com seu casamento. Você se casou com Ricardo porque quis, não porque eu era acionista da empresa do pai dele.
Aquilo era tão típico do meu pai que doeu.
Ele nunca tinha usado dinheiro para exigir respeito.
Ricardo, por outro lado, parecia medir o valor de qualquer pessoa pelo cargo, pelo sobrenome ou pelo saldo que imaginava existir na conta dela.
— A ata — continuei. — O que exatamente ela fazia?
Meu pai explicou que, meses antes, havia recebido uma cópia de documentos internos indicando uma proposta de aumento de capital. Isso, sozinho, não era irregular. Empresas faziam aumentos de capital, e acionistas podiam acompanhar ou não.
O problema era outro.
Nos papéis que circularam internamente, aparecia uma declaração de que Paulo havia sido comunicado, participado da deliberação e concordado com um procedimento que, na prática, reduziria drasticamente sua participação se ele não fizesse um novo aporte dentro de determinado prazo.
Ele nunca tinha recebido a convocação formal daquela forma.
Muito menos assinado a aprovação.
— Eu só descobri porque pedi a posição atualizada das minhas ações — disse meu pai. — Quando vi a referência à ata, procurei o César.
Olhei para Ricardo.
— Você sabia disso?
— Claro que não.
— Então por que sabia que o documento estava dentro do envelope?
— Eu não sabia.
— E por que a Camila acabou de mencionar a próxima reunião do conselho?
Camila ficou pálida.
— Eu sou secretária do vice-presidente. Eu vejo agenda, Marina. Isso não prova nada.
— Eu não disse que provava.
Ricardo apontou para a porta.
— Camila, vai embora.
Ela o encarou.
— Como assim?
— Vai embora. Agora.
— Você disse que eu podia ficar.
— Eu disse para você ir embora!
A humilhação que ele tinha imposto aos meus pais menos de uma hora antes agora respingava na mulher que ele trouxera para substituí-los dentro da nossa casa.
Camila pegou a mala.
Antes de sair, porém, olhou para mim.
— Eu não sabia dessa história das ações.
Ricardo deu um passo na direção dela.
— Chega.
Ela abriu a porta, mas parou.
— E você também não contou para ela sobre nós?
A sala pareceu encolher.
Ricardo fechou os olhos por um segundo.
Eu não precisei perguntar o que “nós” significava.
A mão dela no braço dele, a mala, a mudança, os jantares, as viagens, a tranquilidade que ele dizia querer dentro de casa.
Tudo se encaixou sem precisar de mais nenhuma prova cinematográfica.
— Há quanto tempo? — perguntei.
Camila olhou para Ricardo antes de responder.
— Oito meses.
Ele perdeu o controle.
— Você está fazendo isso porque está nervosa!
— Não. Estou fazendo porque você acabou de me mandar embora como se eu fosse ninguém.
Ela saiu.
A porta se fechou.
Ricardo caminhou até o bar e apoiou as duas mãos sobre o balcão.
— Marina, escuta. Eu ia conversar com você.
— Quando? Depois de expulsar meus pais ou depois de colocar a Camila no quarto?
— Nosso casamento já não estava bem.
— Então você pede separação. Você não humilha meus pais dentro da casa que eles ajudaram a pagar.
— Eu estava sob pressão.
— Não joga isso na empresa. Não joga isso no seu pai. Não joga isso em mim. Você escolheu cada palavra que disse hoje.
Ele se virou.
— Você acha que seu pai é inocente? Ele guardou essa participação durante anos e nunca contou para ninguém.
— Seu pai sabia.
Ricardo ficou quieto.
— A assinatura dele está no acordo.
— Meu pai faz negócios com centenas de pessoas.
— Mas você chamou o meu pai de parasita na frente dele.
A boca de Ricardo se abriu, mas nada saiu.
Foi a primeira vez naquela noite em que não encontrou uma frase rápida para me diminuir.
Desliguei a chamada e fui para o quarto.
Peguei uma mala pequena.
Ricardo veio atrás.
— Aonde você vai?
— Campinas.
— Você vai simplesmente fugir?
Continuei dobrando minhas roupas.
— Fugir seria fingir que nada aconteceu e continuar morando aqui enquanto você prepara documentos pelas minhas costas.
— Eu não preparei documento nenhum.
— Ótimo. Então a auditoria vai confirmar isso.
Ele segurou meu braço.
Não com violência suficiente para me machucar, mas com força bastante para tentar me impedir de andar.
Puxei o braço de volta.
— Não encosta em mim.
Ele soltou imediatamente.
— Que auditoria?
— A que meu pai vai pedir como acionista e que eu vou apoiar com tudo o que encontrar.
— Você não tem poder para entrar numa questão societária que não é sua.
— Talvez não. Mas tenho poder para entregar ao advogado os documentos que estavam dentro do meu próprio cofre, preservar mensagens, sair desta casa e me recusar a assinar qualquer coisa.
Ricardo me olhou de um jeito diferente.
Durante anos ele confundira minha tentativa de manter a paz com fraqueza.
Naquela noite percebeu que eram coisas completamente diferentes.
Passei menos de vinte minutos arrumando o necessário.
Antes de sair, fotografei cada documento e deixei os originais no lugar indicado por César até que fossem recolhidos formalmente.
Também enviei ao advogado uma mensagem autorizando que ele cuidasse apenas dos meus interesses pessoais relacionados ao apartamento e à separação. A parte societária continuaria sendo conduzida pelo meu pai como acionista, com assessoria própria.
Eu não queria transformar um advogado em salvador.
Queria entender onde eu estava pisando e decidir meus próprios passos.
Ricardo me seguiu até a sala.
— Marina, espera.
Parei diante da porta.
— O quê?
A voz dele baixou.
— Não envolve meu pai nisso.
Quase sorri.
— Você trouxe minha mãe, meu pai, sua secretária, nosso apartamento e a empresa da sua família para dentro disso sozinho.
— Se essa história virar uma briga de conselho, pode destruir anos de trabalho.
— Então talvez você devesse ter pensado nisso antes de mexer em documento de acionista.
— Você não sabe se eu mexi.
— Ainda não.
Ele respirou fundo.
— Vamos resolver entre nós.
— Eu tentei resolver “entre nós” durante meses.
— Do que você está falando?
— Das noites em que você dizia estar trabalhando. Dos jantares que nunca conseguiam terminar antes da meia-noite. Das vezes em que eu perguntava sobre a Camila e você dizia que eu estava insegura por causa da recuperação.
Ricardo desviou o olhar.
Aquela pequena reação me feriu mais do que uma confissão longa.
— Eu estava tentando manter minha vida profissional funcionando — disse ele.
— E ela estava morando onde nessa vida profissional? No nosso quarto de hóspedes?
— Não precisava acontecer desse jeito.
— Concordo.
Abri a porta.
— Bastava você não ter feito.
Saí do apartamento.
No elevador, minhas pernas começaram a tremer.
Não chorei imediatamente.
Fiquei olhando os números dos andares diminuírem enquanto tentava reconhecer a mulher refletida no espelho.
Eu ainda estava com medo.
Ainda estava ferida.
Ainda não sabia se meu casamento terminaria em uma disputa longa, se Ricardo assumiria alguma coisa ou se passaria os próximos meses tentando culpar todos ao redor.
Mas uma coisa tinha mudado.
Eu não estava mais tentando salvar, sozinha, uma relação que ele já tinha abandonado.
Quando cheguei a Campinas, passava da meia-noite.
Minha mãe abriu a porta antes mesmo que eu tocasse a campainha pela segunda vez.
Ela me abraçou sem perguntar nada.
Meu pai estava sentado à mesa da cozinha com uma pasta fechada diante dele.
Sentei em frente aos dois.
— Agora eu quero saber tudo.
Paulo abriu a pasta.
Dentro havia o acordo acionário antigo, comprovantes bancários do investimento, correspondências trocadas com Otávio e cópias das versões conflitantes da ata recente.
Nenhum papel, sozinho, resolvia o problema.
Juntos, porém, formavam uma linha do tempo.
Meu pai apontou para as datas.
A versão verdadeira mostrava que ele pedira esclarecimentos sobre o aumento de capital.
A outra o apresentava como alguém que já havia concordado.
— César pediu que um especialista independente faça a análise técnica das assinaturas e dos arquivos — explicou meu pai. — E eu vou solicitar formalmente acesso aos registros da companhia.
— Otávio sabe?
— Ainda não tudo.
— Então precisa saber.
Meu pai me observou.
— Tem certeza?
Pensei no rosto de Ricardo quando viu o documento.
Pensei na forma como tinha tratado meus pais.
Pensei em Camila entrando com uma mala.
— Tenho.
No dia seguinte, meu pai enviou uma notificação formal ao conselho do Grupo Tavares pedindo preservação dos documentos relacionados ao aumento de capital e uma revisão independente do procedimento.
Nada foi bloqueado em cinco minutos.
Nenhum banco fechou conta.
Nenhum juiz apareceu.
Foi apenas o início de um processo.
Mas era um processo que Ricardo não poderia controlar sozinho.
Naquela tarde, recebi mais de vinte mensagens dele.
Primeiro, raiva.
Depois, acusações.
Em seguida, pedidos para conversar.
Ignorei todas até que chegou uma diferente:
“Meu pai quer falar com você e com o seu pai amanhã.”
Mostrei a mensagem a Paulo.
Ele assentiu.
— Eu esperava isso.
— Você acha que Otávio vai proteger o filho?
Meu pai fechou a pasta.
— Eu não sei. Mas amanhã não importa o que ele queira proteger. Importa o que os documentos mostram.
A reunião aconteceu em um escritório neutro, acompanhada pelos advogados das partes.
Otávio entrou com o rosto fechado.
Ricardo veio atrás dele.
Quando me viu, tentou se aproximar.
— Marina…
Levantei a mão.
— Aqui não.
Otávio sentou-se diante do meu pai.
Ficaram alguns segundos se encarando.
Então Paulo colocou a cópia da ata sobre a mesa.
— Essa não é minha assinatura.
Otávio pegou a folha.
Leu.
Depois olhou para Ricardo.
— Você sabia disso?
Ricardo respirou fundo.
— Essa documentação passou por várias pessoas.
— Eu perguntei se você sabia.
— Eu não preparei sozinho.
Foi uma resposta estranha.
Ninguém tinha perguntado se ele preparara o documento.
Otávio percebeu também.
— Quem falou em preparar?
Ricardo ficou mudo.
Meu pai não elevou a voz.
— Quero auditoria independente, acesso aos registros e suspensão de qualquer deliberação baseada nessa ata até tudo ser esclarecido.
Otávio fechou os olhos por um instante.
Depois disse:
— Concordo com a suspensão da deliberação.
Ricardo bateu a mão na mesa.
— Pai!
— Se o documento for legítimo, a revisão vai confirmar.
— Você vai dar razão para eles sem nem me ouvir?
Otávio virou-se lentamente para o filho.
— Eu estou ouvindo você desde que entrou aqui.
O celular de César vibrou sobre a mesa.
Ele leu a mensagem e depois passou a tela para meu pai.
O especialista havia encontrado algo ainda mais específico nos arquivos digitais entregues para análise preliminar.
A imagem da assinatura usada na ata apresentava características compatíveis com uma reprodução inserida digitalmente a partir de um documento antigo.
Ricardo empalideceu.
Meu pai colocou o telefone sobre a mesa.
— Ricardo — disse ele —, eu quero ouvir da sua boca uma resposta simples.
Ricardo tentou manter o rosto firme.
— Qual?
Meu pai se inclinou levemente para frente.
— Quem mandou colocar minha assinatura nesse documento?
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