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Saí da prisão, pedi o divórcio, e meu marido assinou sem nem perceber enquanto consolava outra mulher

Parte 3

Henrique saiu da farmácia sem conseguir responder.

Marina o observou atravessar a calçada pela janela do escritório, entrar no carro e permanecer alguns minutos com as mãos apoiadas no volante antes de ir embora. Em outra época, aquela imagem teria despertado nela culpa suficiente para fazê-la correr atrás dele. Dessa vez, sentiu apenas cansaço.

O problema nunca fora um único episódio. A acusação de envenenamento tinha sido o ponto mais grave, mas só chegara tão longe porque Henrique já havia se acostumado a considerar o desconforto de Lívia mais importante que a palavra da própria esposa.

Marina precisava entender exatamente o que tinha acontecido com a denúncia.

Não para salvar o casamento.

Para limpar o próprio nome.

Com orientação jurídica, solicitou acesso aos registros relacionados à ocorrência que levara à sua detenção provisória. O processo não avançava com a velocidade que Henrique parecera imaginar quando a acusara. Existiam procedimentos, depoimentos a serem confrontados e uma pergunta básica que ainda precisava de resposta: havia elementos suficientes para sustentar uma acusação criminal contra Marina?

Ela não tentou interferir em nada.

Limitou-se a prestar todas as informações solicitadas e pediu que sua defesa insistisse no esclarecimento formal da versão de Lívia.

A própria Lívia havia dito, diante de Henrique, que nunca afirmara ter sido envenenada por Marina.

Se aquela era realmente sua versão, teria de repeti-la quando fosse questionada pelas autoridades.

Enquanto isso, Marina retomou a rotina na farmácia.

Os primeiros dias foram difíceis. Algumas horas pareciam passar normalmente; em outras, bastava ouvir o barulho de uma chave girando numa porta para lembrar do som metálico das grades do local onde ficara detida.

Mesmo assim, ela continuou trabalhando.

Separou documentos técnicos da fórmula desenvolvida pela família, organizou registros antigos e participou de reuniões com a equipe do senhor Couto. A proposta não foi fechada com um aperto de mão nem com uma promessa vaga. A empresa realizou análise técnica e jurídica, e Marina também exigiu condições claras antes de aceitar qualquer cessão ou licenciamento.

Ela não queria trocar uma relação em que não era ouvida por outra em que alguém tomasse decisões por ela.

Do outro lado da cidade, Henrique começava a descobrir o que significava voltar para uma casa onde Marina não estava.

No primeiro dia, irritou-se porque não encontrou uma pasta que costumava pedir a ela.

No segundo, percebeu que várias questões da rotina doméstica que pareciam acontecer sozinhas simplesmente não aconteciam.

No terceiro, entrou no quarto e viu o lado vazio do armário.

Foi ali que a realidade pareceu finalmente alcançá-lo.

Lívia continuava hospedada na casa.

Uma noite, durante o jantar, Henrique perguntou:

— Por que você disse à Marina que nunca acusou ela?

Lívia parou com o garfo no ar.

— Porque é verdade.

— Então por que você nunca me falou isso antes?

Ela franziu a testa.

— Henrique, quando eu acordei, você já tinha feito a denúncia e a Marina já estava envolvida com a polícia. Eu estava mal. Você não me perguntou o que eu tinha visto. Você me disse o que achava que tinha acontecido.

A resposta o deixou imóvel.

— Você poderia ter me corrigido.

— E eu tentei explicar depois que não tinha certeza de nada.

Henrique levantou os olhos.

— Você nunca me disse isso dessa forma.

— Talvez porque você estivesse ocupado demais tentando resolver tudo sozinho.

Não havia triunfo na voz de Lívia. Tampouco uma confissão.

Era justamente isso que tornava a situação pior.

Henrique não descobrira uma conspiração escondida.

Descobrira que talvez não existisse ninguém a quem transferir a culpa por sua própria decisão.

Dias depois, ele apareceu novamente na farmácia.

Dessa vez, não entrou exigindo conversar. Esperou Marina terminar o atendimento e ficou perto da porta.

— Posso falar com você por cinco minutos?

Marina olhou o relógio.

— Cinco.

Henrique respirou fundo.

— Conversei com a Lívia.

Marina não respondeu.

— Ela disse que nunca viu você colocando nada em coisa nenhuma.

— Ela já tinha dito isso na nossa frente.

— Eu sei.

Marina apoiou as mãos sobre o balcão.

— Então o que mudou?

Henrique demorou a responder.

— Eu percebi que tomei uma decisão antes de ter certeza.

Ela quase sorriu de incredulidade.

— Você me mandou para uma delegacia, Henrique. Eu fiquei detida enquanto você estava convencido de que não precisava sequer ouvir minha versão.

— Eu estava desesperado.

— E eu era sua esposa.

A frase saiu tranquila.

Foi isso que o abalou.

Henrique abriu a boca, mas Marina continuou:

— Se você tivesse errado tentando descobrir a verdade, seria uma coisa. Mas você não tentou. Você escolheu em quem acreditar antes de perguntar.

Ele abaixou a cabeça.

— Eu sei.

— Não. Você está começando a saber.

Henrique levantou os olhos.

— Eu quero consertar isso.

Marina sentiu uma pontada no peito, mas não desviou.

— O que exatamente você quer consertar? A denúncia? A forma como me tratou quando voltei? O fato de ter colocado a Lívia dentro da nossa casa? Ou o momento em que você tentou me obrigar a atravessar um braseiro para não estragar o humor dela?

Cada pergunta atingiu Henrique com uma precisão que nenhum grito teria alcançado.

— Eu errei.

— Sim.

Ele pareceu não esperar uma resposta tão direta.

— Marina…

— Você não precisa que eu alivie isso pra você.

Henrique passou alguns segundos em silêncio antes de perguntar:

— Você realmente vai trabalhar com o Couto?

— Estou negociando uma proposta.

— Então vai vender a fórmula da sua família?

— Se o acordo for bom e proteger o que precisa ser protegido, podemos licenciar ou transferir os direitos conforme a análise. Ainda está sendo discutido.

Henrique soltou o ar.

— Você já planejou tudo.

— Não. Eu só comecei a planejar minha vida depois que parei de esperar que você fizesse parte dela.

Nos dias seguintes, a apuração sobre o suposto envenenamento avançou.

Quando foi formalmente ouvida, Lívia manteve o que dissera em casa: não tinha visto Marina adulterar comida, bebida ou medicamento algum e não podia afirmar que ela tivesse provocado o mal-estar.

Aquilo não transformava automaticamente a situação em um erro resolvido.

Mas retirava peso da convicção com que Henrique tratara Marina como culpada.

A defesa apresentou sua versão, os registros disponíveis foram analisados e, aos poucos, ficou claro que a suspeita inicial era muito mais forte na cabeça de Henrique do que nos elementos concretos reunidos.

Marina soube disso por seu advogado.

Sentou-se sozinha no pequeno apartamento e permaneceu alguns minutos com o telefone nas mãos.

Esperara sentir alegria.

Sentiu raiva.

Não contra Lívia.

Contra Henrique.

Porque a confirmação de que nem a própria mulher que passara mal a acusava tornava impossível continuar fingindo que ele apenas tinha sido vítima das circunstâncias.

Ele escolhera agir daquela maneira.

Naquela noite, Marina chorou pela primeira vez desde que saíra da detenção.

Não chorou porque queria voltar.

Chorou pelos anos em que acreditara que, se fosse mais paciente, mais compreensiva e menos exigente, algum dia Henrique a colocaria no mesmo lugar que ela reservava para ele.

Depois, lavou o rosto e voltou para a mesa.

Havia documentos da negociação com a empresa esperando por ela.

Também havia papéis da separação.

Marina assinou a autorização para que o advogado prosseguisse com todas as etapas necessárias do divórcio.

Não deixaria mais nenhum procedimento parado por uma possibilidade de reconciliação que só existia na cabeça de Henrique.

Alguns dias depois, também decidiu alugar um apartamento em seu próprio nome.

Não era grande nem luxuoso. Tinha uma sala iluminada, cozinha pequena e uma janela de onde se viam prédios e árvores apertadas entre as ruas de São Paulo.

Marina gostou imediatamente.

Pela primeira vez em anos, escolhia uma casa pensando apenas em como queria viver.

Henrique soube da mudança porque o advogado pediu a atualização do endereço para a documentação.

Na noite em que Marina terminou de levar as últimas caixas, alguém tocou a campainha.

Quando abriu a porta, encontrou Henrique.

Ele segurava a própria cópia do acordo de divórcio.

A mesma que assinara sem ler.

— Precisamos conversar uma última vez.

Marina não abriu mais a porta.

— Fala daqui.

Henrique olhou para as folhas em sua mão.

— Eu li tudo.

— Finalmente.

Ele ignorou a ironia.

— A divisão dos bens está justa. Você não está tentando tirar nada de mim.

Marina franziu a testa.

— Você veio até aqui para descobrir isso?

— Não.

Henrique ergueu os olhos.

Parecia cansado.

— Eu vim porque entendi que você realmente não está usando o divórcio para me pressionar.

— Nunca estive.

Ele apertou os papéis.

— Eu não quero me divorciar.

Marina não precisou pensar antes de responder.

— Mas eu quero.

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