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Grávida de oito meses, encontrei meu marido beijando a mesma mulher que já havia destruído nossa família três anos antes

Parte 3

Na manhã seguinte, Dr. Renato voltou à minha casa com uma pasta fina e uma explicação muito mais simples do que todas as desculpas que eu tinha escutado durante três anos.

— Augusto pode discordar de valores, divisão de patrimônio e questões ligadas ao bebê. Mas ele não pode obrigar você a continuar casada — disse. — O divórcio não depende de ele aceitar o fim do casamento.

Aquela frase teve um efeito estranho sobre mim.

Durante anos, eu havia tratado meu casamento como uma porta que só poderia ser aberta se nós dois girássemos a chave ao mesmo tempo. Na verdade, eu tinha o direito de sair.

Pedi que Renato preparasse tudo sem agressividade desnecessária, mas também sem brechas para que minha decisão fosse transformada em uma negociação sentimental.

— Não quero vingança — expliquei. — Quero clareza.

Também deixei claro que Augusto deveria participar da vida do bebê depois do nascimento, desde que respeitasse os limites definidos. Eu estava encerrando um casamento, não tentando apagar um pai.

Renato assentiu.

— Isso torna as coisas mais organizadas. Mas você precisa separar duas questões: a responsabilidade dele como pai e a relação dele com você.

Eu já estava começando a entender exatamente isso.

Nos dias seguintes, Augusto não voltou para casa. Mandava mensagens curtas perguntando sobre consultas, exames e se eu precisava de alguma coisa. Não usava apelidos. Não pedia para conversar todas as noites.

Eu respondia apenas o necessário.

Quando chegou o dia de uma consulta pré-natal, ele perguntou se poderia me acompanhar.

Minha primeira vontade foi dizer não.

Depois pensei no bebê.

— Pode. Mas não transforme isso numa tentativa de falar sobre nós.

Ele aceitou.

Sentou-se ao meu lado na sala de espera do consultório como se houvesse um oceano inteiro entre nossas cadeiras. Quando o médico confirmou que estava tudo bem, Augusto fechou os olhos e respirou fundo.

Do lado de fora, ele tentou falar comigo.

— Obrigado por ter deixado eu vir.

— Você não precisa me agradecer por ser pai.

— Eu sei.

Ficamos alguns segundos parados.

Então ele disse:

— Eu parei de falar com a Camila.

Não senti alívio.

Aquilo me surpreendeu.

Três anos antes, eu teria dado qualquer coisa para escutar aquela frase. Agora ela parecia pequena demais.

— Essa decisão é sua, Augusto.

— Não estou falando para ganhar pontos com você.

— Então não precisa me contar.

Ele abaixou a cabeça.

Eu fui embora.

Dois dias depois, recebi uma ligação de Camila.

Quase desliguei no mesmo instante.

— Helena, por favor. Eu só quero falar com você uma vez.

— Você já falou bastante naquele shopping.

— Eu sei. E eu sei que não tenho direito de pedir nada. Mas tem coisas que você merece ouvir de mim, não dele.

Eu poderia ter recusado.

Parte de mim queria nunca mais ouvir a voz daquela mulher.

Mas outra parte estava cansada de viver cercada por frases incompletas.

Aceitei encontrá-la num café movimentado durante a tarde. Fiz questão de escolher um local público e avisei Renato onde estaria, não porque esperasse algum perigo, mas porque eu já não queria mais agir como alguém que precisava lidar sozinha com tudo.

Camila chegou antes de mim.

Sem jaleco, sem roupas elegantes, sem a postura que eu lembrava do hospital. Parecia apenas uma mulher cansada.

Sentei diante dela.

— Fala.

Ela segurou a xícara com as duas mãos.

— Eu fui embora de Brasília depois que saí do hospital. Passei muito tempo tentando reconstruir minha vida.

— E decidiu reconstruí-la beijando meu marido.

Ela fechou os olhos.

— Não tem justificativa.

— Pelo menos nisso concordamos.

Camila respirou fundo.

— Eu mandei a primeira mensagem para Augusto quando voltei. Eu queria saber como ele estava.

— E ele respondeu.

— Respondeu.

— Vocês se encontraram quantas vezes?

— Quatro.

A resposta veio rápida demais para parecer inventada.

— Na primeira, tomamos café. Na segunda, conversamos dentro do carro dele. Na terceira, discutimos. Na quarta…

— Eu vi a quarta.

Ela baixou o rosto.

— Sim.

— Vocês dormiram juntos?

Camila levantou os olhos.

— Não.

Eu a observei em silêncio.

Não tinha como saber se cada palavra era verdadeira. E, naquele momento, percebi que não precisava transformar minha vida numa investigação eterna.

— O beijo já basta.

Ela pareceu surpresa.

— Você acredita em mim?

— Não é sobre acreditar. Mesmo que vocês nunca tenham ido além daquele beijo, Augusto escondeu seus encontros, respondeu suas mensagens e voltou para um vínculo que sabia que tinha quase destruído minha vida. Eu não preciso descobrir algo pior para justificar minha decisão.

Camila ficou em silêncio.

Então perguntei aquilo que durante anos carregara comigo.

— Por que você fez aquilo comigo no hospital?

Os dedos dela apertaram a xícara.

— Eu tinha ciúme de você.

Meu peito ficou duro.

— Você era minha médica.

— Eu sei.

— Eu estava grávida.

— Eu sei.

A voz dela começou a falhar.

— Quando aquela família começou a reclamar de você, eu alimentei a situação. Falei coisas que não deveria. Fiz parecer que você tinha usado a posição do Augusto para conseguir privilégios. Achei que iam constranger você, nada mais.

— E eu fui empurrada.

Camila não tentou se defender.

— Eu sei.

— E perdi meu filho.

Ela começou a chorar.

Dessa vez, não levantei a mão.

Não senti vontade.

Talvez porque três anos antes eu ainda achasse que precisava devolver a dor na mesma moeda. Agora eu só queria sair daquele ciclo.

— O que aconteceu com sua carreira não apaga o que você fez — falei. — E sua culpa também não me devolve nada.

— Eu sei.

— Então pare de procurar meu marido.

Ela me encarou.

Corrigi a frase.

— Meu futuro ex-marido.

Camila assentiu.

Levantei-me.

— Helena…

Parei.

— Eu sinto muito.

Olhei para ela.

— Você pode sentir muito pelo resto da vida. Só não transforme seu arrependimento em mais uma obrigação para mim. Eu não tenho que perdoar você para seguir em frente.

Saí.

Naquela noite, contei a Augusto que havia conversado com Camila.

Ele ficou pálido.

— Ela admitiu que foi quem entrou em contato primeiro.

— Foi.

— E você respondeu.

— Respondi.

— Quatro encontros.

Ele não negou.

— Sim.

Eu já sabia, mas ouvir da boca dele fechou uma porta dentro de mim.

— Por que você não me contou quando ela apareceu?

— Porque eu sabia que você ia pedir para eu cortar contato.

— E queria continuar falando com ela.

Augusto demorou para responder.

— Queria entender o que eu ainda sentia.

Aquilo doeu.

Mas não me destruiu.

Havia diferença.

— Você tinha uma esposa grávida de oito meses e decidiu investigar seus sentimentos por outra mulher.

Ele abaixou os olhos.

— Quando você coloca desse jeito…

— Não fui eu quem colocou desse jeito. Foi você quem fez desse jeito.

Pela primeira vez, Augusto não tentou se explicar.

Apenas disse:

— É verdade.

As semanas seguintes passaram devagar.

Minha barriga ficou ainda mais pesada. Dormir se tornou difícil. Eu me concentrava em coisas concretas: consultas, roupinhas, documentos, o quarto do bebê.

O processo de separação seguiu seu curso.

Augusto recebeu a documentação preparada por Renato. Não precisava concordar com o fim do casamento, mas uma solução consensual para as questões patrimoniais e futuras responsabilidades parentais evitaria meses de conflito.

Ele pediu alguns dias para analisar.

Eu não pressionei.

A mulher que eu tinha sido três anos antes teria interpretado cada demora como uma ameaça.

Aquela que eu estava me tornando entendia que algumas coisas podiam levar tempo sem mudar a decisão principal.

Quando completei as últimas semanas da gestação, entrei em trabalho de parto naturalmente.

Augusto recebeu a notícia.

Perguntou se poderia ir ao hospital.

Eu permiti que fosse, mas pedi que aguardasse fora durante o parto.

Ele não discutiu.

Horas depois, quando ouvi o choro do meu bebê, todo o resto pareceu recuar para muito longe.

Chorei.

Mas eram lágrimas diferentes.

Quando finalmente levaram o bebê para o quarto e Augusto entrou, ele parou perto da porta.

Seus olhos se encheram de água.

— Posso chegar perto?

Assenti.

Ele se aproximou devagar.

Olhou para aquela criança como se tivesse medo até de respirar alto demais.

Depois olhou para mim.

— Obrigado.

— Cuida bem do nosso bebê — respondi. — Isso é tudo que eu espero de você agora.

A dor atravessou o rosto dele.

Mesmo assim, assentiu.

Dois dias depois, antes de eu receber alta, Augusto apareceu com uma pasta.

Colocou-a ao lado da cama.

— Eu li tudo que o Renato preparou.

Olhei para ele.

— E?

— Eu assinei o que dependia do meu acordo.

Meu peito apertou, mas eu mantive a voz firme.

— Certo.

Ele ficou parado.

— Helena, antes de eu entregar isso definitivamente ao Renato, preciso te contar uma coisa.

Meu corpo se enrijeceu.

Augusto percebeu.

— Não é outro segredo. Não existe outra mulher, outro filho, nem nada assim.

Respirei devagar.

— Então fala.

Ele olhou para o bebê dormindo ao meu lado.

Depois voltou os olhos para mim.

— Eu preciso te contar por que voltei para você três anos atrás… e por que, mesmo depois de tudo, eu fui fraco o bastante para abrir aquela porta de novo.

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