Home

No dia em que meu marido pediu o divórcio por outra mulher, meu projeto de R$ 20 bilhões foi aprovado

Parte 3

Na manhã seguinte, cheguei ao apartamento pouco depois das nove.

Lucas estava em casa.

Eu não esperava encontrá-lo, mas também não fiquei surpresa. Ele sempre teve a necessidade estranha de acompanhar pessoalmente aquilo que considerava importante, como se a presença dele garantisse que tudo aconteceria da maneira certa.

Havia duas malas abertas no quarto.

Comecei a colocar minhas roupas dentro delas sem pressa.

Não levei metade do que estava no armário.

Muitas peças tinham sido compradas para eventos da família Tavares. Vestidos que a mãe de Lucas considerava “adequados”. Sapatos que combinavam com jantares dos quais eu mal queria participar. Bolsas que haviam sido escolhidas para que ninguém dissesse que a esposa dele parecia simples demais.

Peguei apenas o que ainda parecia meu.

Lucas ficou parado junto à porta.

— Você vai levar tão pouca coisa?

— É o suficiente.

— Tem muita roupa aqui.

— Pode doar.

Ele me observou dobrar uma blusa.

— Você está com pressa para apagar tudo?

Minha mão parou.

— Não estou apagando nada.

Olhei para ele.

— Só não quero continuar carregando coisas que nunca escolhi.

Lucas franziu a testa, mas não respondeu.

Voltei ao armário.

Sobre a cômoda estava uma moldura com uma fotografia do nosso casamento.

Eu vestida de branco.

Lucas ao meu lado.

Na imagem, ele ainda sorria.

Por alguns segundos, fiquei olhando para aquela mulher que eu tinha sido.

Ela acreditava de verdade que paciência podia construir amor.

Acreditava que bastava ser boa, compreensiva, silenciosa e presente.

Hoje eu sabia que amor não era uma recompensa por resistência.

Coloquei a foto virada para baixo.

Não a levei.

— Você não quer isso? — perguntou Lucas.

— Não.

— Era nosso casamento.

— Eu sei.

Ele ficou imóvel.

Aquela foi a primeira vez em que percebi que minha indiferença o atingia mais do que qualquer discussão teria atingido.

Lucas sabia lidar com raiva.

Podia responder a acusações.

Podia se defender de gritos.

Mas não sabia o que fazer diante de uma mulher que já não exigia explicação alguma.

Enquanto fechava a primeira mala, ele disse:

— Minha mãe ligou.

— Imagino.

— Ela soube do divórcio.

Continuei mexendo nas roupas.

— E?

— Disse que quer conversar com você.

Soltei uma respiração curta.

A mãe dele havia passado três anos deixando claro que eu não era boa o suficiente para a família.

Agora que eu estava indo embora, dificilmente teria algo que eu realmente precisasse ouvir.

— Não quero conversar.

— Helena, ela pode ser difícil, mas…

Levantei o rosto.

— Mas o quê?

Lucas se calou.

— Ela me chamou de interesseira diante de outras pessoas, lembra?

— Ela estava irritada.

— Eu também fiquei.

Minha voz saiu tranquila.

— A diferença é que eu não humilhei ninguém.

Lucas passou a mão pela nuca.

— Não estou defendendo minha mãe.

— Está explicando.

— Só estou dizendo que ela é assim.

— Eu sei.

Fechei o zíper da mala.

— Esse foi exatamente o problema durante três anos. Você sempre soube como todos eram. Sua mãe era “assim”. Camila tinha “uma história” com você. Você era “ruim com sentimentos”. E eu era sempre a pessoa que precisava entender.

Ele não reagiu.

Apontei para mim.

— Eu também sou alguém, Lucas.

A frase pareceu simples, mas, quando saiu, senti algo apertar dentro do peito.

Durante muito tempo, até eu havia esquecido disso.

Não era apenas esposa.

Não era apenas nora.

Não era apenas a pessoa que esperava o marido voltar bêbado.

Eu tinha uma profissão.

Uma equipe.

Um nome que aparecia agora nos documentos do maior projeto da minha carreira.

Uma vida inteira que existia para além daquele apartamento.

Lucas olhou para as malas.

— Você está indo para onde?

— Para um apartamento alugado perto do escritório.

— Sozinha?

— Sim.

— Você podia continuar aqui até tudo terminar oficialmente.

— Eu não quero.

A resposta saiu mais firme do que antes.

Ele respirou fundo.

— Helena, você não precisa transformar isso numa guerra.

Quase sorri.

— É impressionante.

— O quê?

— Durante três anos, eu não transformei nada em guerra. E agora que estou simplesmente indo embora, você chama isso de guerra.

Lucas finalmente perdeu um pouco da compostura.

— Então o que você quer que eu faça?

A pergunta veio mais alta.

Eu o encarei.

— Nada.

Ele ficou parado.

— É justamente isso.

Peguei a segunda mala.

— Eu não quero mais nada de você.

A frase mudou o ambiente.

Não houve grito.

Não houve porta batida.

Mesmo assim, parecia a coisa mais dura que eu havia dito a ele desde que nos conhecemos.

Lucas desviou os olhos.

Foi até a janela e ficou olhando os prédios do outro lado da avenida.

— Camila voltou há poucos dias — disse.

Eu não havia perguntado.

Ele continuou:

— Nós conversamos. Eu percebi que ainda havia coisas mal resolvidas.

Fiquei em silêncio.

— E achei que seria injusto continuar casado com você.

— Nisso, você tem razão.

Ele se virou depressa.

Talvez esperasse ironia.

Não havia.

— Só errou em uma coisa — acrescentei.

— Qual?

— Você acha que o problema começou quando ela voltou.

Lucas não respondeu.

— Para mim, começou muito antes.

Peguei a mala.

Ele deu um passo na minha direção.

— Helena, eu nunca tive a intenção de fazer você se sentir…

— Não termina essa frase.

Ele parou.

— Intenção não muda resultado.

A campainha tocou.

Era o motorista que eu havia chamado para ajudar a levar as malas até o carro.

Lucas abriu a porta, e eu vi algo que raramente via nele: hesitação.

Não arrependimento completo.

Ainda não.

Mas talvez a primeira percepção concreta de que eu realmente estava saindo.

Antes de atravessar a porta, fui até a pequena mesa da entrada.

Tirei a chave do apartamento do chaveiro.

Coloquei-a ali.

Lucas olhou para a chave.

— Pode ficar com ela até o divórcio sair.

— Não preciso.

— Helena…

— Essa casa nunca foi minha.

Ele franziu a testa.

— Você morou aqui três anos.

— Morar e pertencer são coisas diferentes.

Saí.

No elevador, não chorei.

Só chorei quando cheguei ao novo apartamento.

Não foi uma crise.

Sentei no chão da sala ainda vazia e deixei as lágrimas caírem.

Chorei pelo casamento.

Pela mulher que eu tinha sido.

Pelas noites acordada.

Pelas vezes em que me convenci de que ter pouco era melhor do que perder tudo.

Depois lavei o rosto e fui trabalhar.

Nos dias seguintes, minha rotina ficou intensa.

O projeto vencedor exigia reuniões com engenheiros, urbanistas, investidores, consultores ambientais e representantes do consórcio responsável pela execução.

Eu finalmente ocupava, em público, um espaço que havia construído em silêncio durante anos.

Não era riqueza repentina.

Não era sorte.

Era trabalho acumulado.

E isso fazia toda a diferença.

Uma semana depois, recebi um telefonema de Lucas.

Ignorei o primeiro.

No segundo, atendi.

— Oi.

— Precisamos conversar sobre os documentos.

— Se for sobre o divórcio, pode falar com o profissional responsável pelo processo.

— Não é só isso.

Houve uma pausa.

— Minha mãe está dizendo para todo mundo que você saiu porque já estava planejando se separar havia meses.

Fechei os olhos.

— E?

— E que você usou o casamento até conseguir esse projeto.

Dessa vez eu ri.

Não de humor.

De incredulidade.

— Sua mãe passou três anos dizendo que meu trabalho não valia nada. Agora decidiu que fiquei casada com você para conseguir um projeto que sua família nem ajudou a conquistar?

Lucas não respondeu.

— Eu falei para ela parar.

— Ótimo.

— Mas acho que você deveria saber.

— Agora eu sei.

Preparei-me para desligar.

— Helena.

— O quê?

— Você não vai se defender?

Olhei pela janela do meu escritório.

A equipe trabalhava ao fundo.

Sobre minha mesa havia desenhos que levavam minha assinatura.

Meu nome.

Meu trabalho.

— Vou.

Lucas ficou quieto.

— Mas não diante da sua mãe.

— Então como?

— Continuando a fazer meu trabalho.

Desliguei.

Naquela noite, soube que a apresentação pública do projeto aconteceria dali a poucos dias.

Meu nome estaria entre os responsáveis pela proposta vencedora.

Não porque eu fosse esposa de Lucas Tavares.

Não porque pertencesse à família dele.

Mas porque tinha conquistado aquele lugar.

E foi então que tomei uma decisão pequena, mas definitiva.

No dia da apresentação, não esconderia mais quem eu era para caber no espaço de ninguém.

Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 4 👇📖

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *