No Meu Casamento, Minha Sogra Me Acusou de Querer a Fortuna da Família — Então Meu Pai Abriu uma Pasta
Parte 3
Eu parei no corredor do hotel, ainda vestida de noiva.
— O que mais existe nesses documentos?
Meu pai olhou para minha mãe antes de responder. Não havia satisfação em seu rosto. Nenhum ar de vingança. Ele parecia cansado.
— O acordo com o Grupo Tavares prevê uma renegociação das garantias se determinados índices financeiros forem descumpridos. Isso já aconteceu. Eu vinha evitando tomar qualquer decisão mais dura porque sabia do seu casamento com Rafael.
Demorei alguns segundos para entender.
— Você estava protegendo a empresa deles por minha causa?
— Eu estava tentando não misturar nossos negócios com sua vida pessoal.
— E agora?
— Agora não existe mais motivo para eu tomar decisões empresariais pensando em preservar uma relação que eles próprios acabaram de destruir.
Aquilo me incomodou.
— Eu não quero que você derrube a empresa deles por minha causa.
Meu pai assentiu.
— Nem eu. E é exatamente por isso que estou falando com você antes de fazer qualquer coisa. Não vou cancelar dívida, não vou inventar punição e não vou usar contratos como arma emocional. A empresa deles terá o mesmo tratamento que qualquer outra teria.
Pela primeira vez naquele dia, senti orgulho não do poder que meu pai poderia exercer, mas do limite que ele estava impondo a si mesmo.
Eu não queria vingança.
Queria sair dali sabendo que ninguém poderia dizer que minha família havia comprado minha vitória.
No caminho para casa, retirei o véu e o deixei sobre o banco do carro. Minha mãe permaneceu ao meu lado sem me pressionar a falar. Quando chegamos, encontrei dezenas de mensagens no celular. Algumas eram de parentes preocupados. Outras vinham de convidados tentando descobrir “o que realmente tinha acontecido”.
Não respondi nenhuma.
Rafael ligou onze vezes naquela noite.
Na décima segunda, atendi.
— Marina.
A voz dele soou diferente. Sem o tom seguro que costumava usar quando queria encerrar uma discussão.
— Fala.
— Eu briguei com minha mãe.
— Isso não muda o que aconteceu.
— Eu sei.
— Sabe mesmo?
Ele respirou fundo.
— Eu descobri que ela mandou investigar sua família há meses. Ela disse que estava tentando me proteger. Os documentos que apresentou hoje foram montados a partir de informações incompletas e algumas conclusões que…
— Rafael, para.
— Eu só quero explicar.
— Então explica uma coisa simples. Você sabia que ela faria aquilo durante o casamento?
Do outro lado da linha, silêncio.
Eu fechei os olhos.
— Sabia?
— Eu sabia que ela pretendia apresentar os documentos antes do fim da cerimônia. Mas achei que, se você explicasse…
— Você achou que eu deveria provar minha inocência no meu próprio casamento.
— Eu estava pressionado.
— Por quem?
— Pela minha mãe. Pela situação da empresa. Pelo que ela dizia sobre você.
— E pela Amanda?
Ele demorou a responder.
— Também.
Sentei na beirada da cama.
— Então fala dela.
— Eu e Amanda nos aproximamos nos últimos meses.
A dor veio, mas não da forma explosiva que eu imaginava.
Foi mais fria.
— Vocês tiveram um caso?
— Não do jeito que você está pensando.
— Rafael, não me obrigue a arrancar palavra por palavra.
Ele respirou fundo.
— Houve beijos.
Apertei o celular.
— Quantas vezes?
— Não sei.
— Isso significa mais de uma.
— Marina…
— E o abraço que eu vi no estacionamento?
— Foi depois de uma discussão nossa. Eu estava mal. Ela me consolou.
Quase ri.
— E hoje ela estava esperando você com uma mala porque também estava consolando você?
— A ideia era sair da cidade por alguns dias depois que tudo terminasse. Eu precisava de espaço.
— Com ela.
— Sim.
A palavra caiu entre nós.
— Então sua mãe preparou uma acusação contra mim, você ficou calado, sua secretária estava pronta para viajar com você e, mesmo assim, você subiu ao altar e prometeu passar a vida comigo.
— Eu estava tentando resolver tudo.
— Não. Você estava tentando manter todas as portas abertas até descobrir qual delas seria mais conveniente.
Ele começou a dizer que me amava.
Desliguei.
Na manhã seguinte, encontrei meu pai no escritório de casa.
Sobre a mesa havia apenas cópias dos documentos essenciais. Ele me explicou que, meses antes, o Grupo Tavares havia descumprido metas de liquidez previstas no acordo de financiamento. A empresa de meu pai poderia exigir garantias adicionais ou negar uma nova extensão de prazo.
— O que eles pediram? — perguntei.
— Mais doze meses.
— E você pretendia aceitar?
— Antes de ontem, sim.
Olhei para ele.
— Por causa de mim.
— Em parte.
— Não faça isso.
Ele franziu a testa.
— Não faça o quê?
— Nem ajude por minha causa, nem puna por minha causa. Analise como analisaria qualquer outra empresa.
Meu pai se recostou na cadeira.
— É isso que você quer?
— É.
A decisão pareceu pequena, mas significava muito para mim.
Eu não queria continuar ligada aos Tavares nem através de favores.
Dois dias depois, Rafael apareceu no portão da casa dos meus pais.
Eu quase mandei dizer que não estava.
Mas percebi que fugir daquela conversa só adiaria o inevitável.
Fui encontrá-lo na sala.
Ele parecia não ter dormido.
— Minha mãe passou dos limites — disse imediatamente.
— E você?
— Eu também.
Foi a primeira vez que o ouvi assumir responsabilidade sem colocar outra frase depois.
Ele sentou, mas eu continuei em pé.
— Amanda pediu demissão.
— Isso é problema de vocês.
— Não existe “nós”.
— Existia o suficiente para vocês planejarem uma viagem juntos no dia do nosso casamento.
Ele abaixou a cabeça.
— Eu fui covarde.
Eu não respondi.
Rafael continuou:
— Quando minha mãe começou a dizer que sua família escondia patrimônio, eu fiquei desconfiado. Depois Amanda encontrou referências a empresas ligadas ao seu pai e disse que talvez você estivesse comigo porque sabia das dificuldades do Grupo Tavares.
— E você acreditou.
— Eu deixei que a dúvida crescesse.
— Sem perguntar a mim.
— Sim.
Aquilo era, talvez, a única explicação verdadeira que ele tinha para oferecer.
Não tornava as coisas melhores.
Mas tornava tudo mais claro.
— Você queria que eu fosse culpada — falei.
Ele ergueu o rosto.
— Não.
— Queria, sim. Porque, se eu estivesse enganando você, seria mais fácil justificar o que estava acontecendo entre você e Amanda.
Rafael ficou imóvel.
Pela expressão dele, eu soube que havia acertado uma parte que nem ele queria encarar.
— Eu não pensei dessa forma.
— Talvez não conscientemente. Mas você precisava de uma versão da história em que você não fosse o homem que beijava outra mulher enquanto preparava o casamento.
Ele levou as mãos ao rosto.
— Eu estraguei tudo.
— Estragou.
— Tem alguma coisa que eu possa fazer?
Pensei no salão.
Na minha aliança sobre a mesa.
Na pulseira arrancada do meu braço.
Na mala prateada de Amanda esperando do lado de fora.
— Pode parar de tentar transformar arrependimento em obrigação para mim.
Ele me encarou.
— Eu ainda amo você.
— Talvez ame. Mas amor sem respeito não serve para construir casamento.
Rafael chorou.
Eu também senti os olhos se encherem, mas não voltei atrás.
Depois que ele foi embora, achei que sentiria alívio imediato.
Não senti.
Passei os dias seguintes alternando raiva, tristeza e uma saudade absurda da vida que eu achava que teria. Às vezes eu acordava e, por alguns segundos, esquecia que o casamento não existia. Depois lembrava de tudo de uma vez.
Enquanto isso, a situação do Grupo Tavares começou a se complicar.
Não porque meu pai tivesse tomado represália.
Ao contrário.
A equipe dele recusou a extensão automática solicitada pela empresa e exigiu uma proposta formal de reestruturação, exatamente como faria com qualquer devedor naquela condição.
Foi então que algo veio à tona.
Ao revisar os números apresentados para justificar o novo prazo, os consultores encontraram inconsistências entre projeções internas e documentos enviados anteriormente.
Meu pai não me deu detalhes confidenciais.
Só disse:
— Eles vão precisar explicar algumas coisas.
— Isso tem relação com Amanda?
— Ainda não sabemos. E não vou acusar ninguém sem prova.
Eu agradeci.
Era exatamente o tipo de cuidado que havia faltado à família Tavares quando decidiram me julgar.
Uma semana depois, Sônia apareceu sem avisar.
Minha mãe queria mandá-la embora.
Eu pedi que deixasse entrar.
Sônia parecia menor sem o palco, os convidados e a segurança da própria família ao redor.
Sentou-se diante de mim.
— Vim pedir que você converse com seu pai.
Eu quase não acreditei.
— Sobre o quê?
— Sobre a empresa.
— Minha relação com os negócios dele é a mesma de antes: nenhuma.
— Marina, você sabe que isso não é verdade.
— Sei exatamente que é verdade.
Ela apertou a bolsa.
— Se seu pai não aprovar a renegociação, podemos perder ativos importantes.
— E por que isso é responsabilidade minha?
Sônia fechou os olhos por um instante.
— Porque tudo isso começou naquele casamento.
— Não. Os problemas financeiros começaram antes. O contrato foi assinado três anos atrás. Os atrasos vieram antes do casamento. O que aconteceu naquele salão apenas fez meu pai parar de tratar vocês como uma exceção.
Ela ficou vermelha.
— Você está se vingando.
— Eu não pedi que ele cobrasse nada além do que está no contrato.
— Você poderia pedir que ele aliviasse.
— Poderia.
Ela pareceu respirar aliviada.
Então completei:
— Mas não vou.
Sônia me encarou.
— Depois de tudo que fizemos por você…
Eu me levantei.
— Pare aí.
Minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
— A senhora me acusou de tentar entrar na sua família por dinheiro. Agora está dentro da minha casa pedindo que eu use minha influência familiar para salvar o patrimônio de vocês.
Ela ficou sem palavras.
— Eu não vou destruir sua empresa. Também não vou salvá-la. O Grupo Tavares vai responder pelas próprias decisões.
Sônia se levantou lentamente.
Antes de sair, ainda tentou:
— Rafael está sofrendo.
— Eu também sofri.
— Ele se arrependeu.
— Arrependimento é consequência. Não é passe livre.
Ela saiu.
Naquela noite, meu pai recebeu uma ligação.
Depois de desligar, veio me procurar na varanda.
— A diretoria do Grupo Tavares convocou uma reunião extraordinária.
— Por quê?
— Encontraram movimentações e aprovações internas que precisam ser esclarecidas antes de apresentar o plano de renegociação.
Meu estômago apertou.
— Rafael está envolvido?
Meu pai balançou a cabeça.
— Não sei.
— E Amanda?
— Também não sei.
Ele fez uma pausa.
— Mas Rafael pediu para você estar presente amanhã.
Eu franzi a testa.
— Numa reunião da empresa dele?
— Não como sócia. Como a pessoa cuja reputação foi publicamente atacada usando documentos que agora estão sendo questionados.
Olhei para a cidade pela janela.
Uma semana antes, eu teria sentido medo.
Desta vez, senti outra coisa.
— Eu vou.
Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 4 👇📖