O pai do meu namorado me ofereceu R$ 8 milhões para sumir — dez minutos depois, ele descobriu quem eu era
Parte 3
— Você sabia — falei.
Caio passou a mão pelo rosto.
— Eu sabia que ele era contra nós. Sabia que ele queria que eu terminasse. Mas não sabia que ele chegaria ao ponto de oferecer dinheiro.
— Isso muda o quê?
— Muda que eu nunca autorizei aquilo.
— E eu nunca disse que você autorizou.
Ele respirou fundo e deu dois passos pelo estúdio. Conhecia aquele lugar desde quando eu ainda trabalhava sozinha numa mesa pequena, cercada de caixas, amostras de papel e café frio. Durante meses, Caio dizia gostar dali porque era o único lugar em que ninguém o chamava de presidente.
Naquela manhã, porém, ele parecia ocupar espaço demais.
— Meu pai me pressionou — explicou. — Disse que nosso relacionamento estava afetando conversas dentro da família. Minha tia, alguns conselheiros antigos… todos começaram a perguntar se eu pretendia me casar.
— E você respondeu o quê?
Caio demorou.
— Que precisava de tempo.
Assenti devagar.
— Então era isso que você estava tentando resolver durante três meses.
— Eu estava tentando fazê-lo aceitar.
— Não, Caio. Você estava tentando me manter esperando até conseguir autorização.
Ele se aproximou.
— Não é assim.
— Então me explica de um jeito diferente.
Ele não conseguiu.
Voltei para a mesa e coloquei dentro de uma caixa o porta-retrato que ele havia me dado. Não queria quebrá-lo nem fazer uma cena. Só não queria olhar para aquela fotografia.
Caio percebeu.
— Você está terminando comigo de verdade?
— Seu pai colocou um contrato na minha frente ontem.
— E você assinou.
— Assinei porque percebi que ele só chegou naquela mesa porque você deixou a porta aberta.
A frase o atingiu.
— Isso é injusto.
— Talvez seja. Mas sabe o que também foi injusto? Eu entrar na casa da sua avó, jantar com sua família, escutar você falar sobre futuro e, ao mesmo tempo, não saber que seu pai estava exigindo que você me deixasse.
Caio abaixou os olhos.
— Eu achei que conseguiria resolver sozinho.
— E me poupou da verdade.
— Eu queria evitar que você se machucasse.
— Você só escolheu o momento em que eu me machucaria.
A sala ficou quieta.
Caio aproximou a mão da minha, mas recuou antes de tocar.
— Me dá alguns dias.
— Para quê?
— Para consertar isso.
Eu o encarei.
— É exatamente a frase que você vem repetindo há três meses.
Ele ficou parado por mais alguns segundos. Depois pegou as chaves sobre o balcão e saiu sem bater a porta.
Só quando ouvi o elevador fechar percebi como minhas mãos tremiam.
Eu queria acreditar que tinha tomado uma decisão racional. Na verdade, estava arrasada.
Amar alguém não desaparece no instante em que você entende que aquela pessoa falhou com você.
Às vezes acontece o contrário.
Você continua amando e, justamente por isso, precisa fazer força para não voltar.
Naquela tarde, encontrei Álvaro em seu escritório.
Ele não começou falando de dinheiro.
Essa foi a primeira coisa que me fez confiar um pouco nele.
Espalhou sobre a mesa cópias de certidões, registros antigos e fotografias. Mostrou o nome da minha mãe antes do casamento, o registro de nascimento dela, a certidão do casamento dos meus pais e documentos que confirmavam a ligação com a família Valença.
— Sua mãe rompeu com os pais quando decidiu se casar com seu pai — explicou. — Antônio Valença era um homem extremamente controlador. Ele considerava seu pai inadequado para a filha.
Soltei uma risada curta e sem humor.
— Parece familiar.
Álvaro entendeu.
— Infelizmente, sim.
Minha mãe raramente falava da juventude.
Eu lembrava de poucas coisas. Um comentário sobre “uma casa onde tudo parecia bonito por fora”, uma caixa de fotografias que desaparecera durante uma mudança e uma medalha antiga com a letra V que ela guardava numa gaveta.
Eu nunca havia perguntado muito.
Quando meus pais morreram num acidente, eu tinha quinze anos. Fui morar com uma tia do lado do meu pai no interior do Paraná. Ela fez o que conseguiu com pouco dinheiro e três filhos próprios.
Minha mãe virou uma lembrança congelada naquela idade.
— Minha avó sabia que eu existia?
— Sabia que Beatriz teve uma filha. Mas não sabia onde você estava depois do acidente.
— Como alguém com dinheiro e advogados não encontra uma adolescente?
Álvaro não tentou inventar uma resposta bonita.
— Encontrar pessoas era mais difícil naquela época, mas não impossível. Houve orgulho dos dois lados, informações incompletas, mudanças de endereço e, depois, uma sequência de decisões ruins. Seu avô interrompeu as buscas. Sua avó nunca concordou totalmente com isso, mas durante anos não o enfrentou.
A honestidade doeu mais do que uma desculpa.
— Então ninguém me roubou deles.
— Não.
— Ninguém falsificou documentos.
— Não.
— Ninguém conspirou para esconder minha existência.
— Não.
Ele juntou as mãos.
— Foram adultos tomando decisões por orgulho. E uma criança acabou crescendo sem saber de uma parte da própria família.
Aquilo fazia sentido.
Talvez por isso doesse tanto.
— Por que me procurar agora?
— Seu avô morreu há dois anos. Depois disso, Teresa retomou pessoalmente a busca pela filha e pela neta. Descobrimos o falecimento da sua mãe e, meses depois, chegamos até você. Antes de aparecer na sua porta, ela me pediu confirmação documental completa.
— E existe alguma herança?
Álvaro assentiu.
— Existem direitos patrimoniais ligados à participação que pertencia à sua mãe em uma holding familiar. Mas isso está sendo regularizado judicialmente. Não existe uma mala de dinheiro esperando por você e ninguém vai transferir uma empresa para seu nome amanhã.
Quase senti alívio.
— Ótimo.
Ele sorriu discretamente.
— Sua reação é diferente da maioria.
— Ontem me ofereceram R$ 8 milhões para desaparecer. Hoje descobri que minha mãe fazia parte de uma família milionária. Acho que alcancei minha cota de dinheiro absurdo para uma semana.
Álvaro também riu, mas logo voltou a ficar sério.
— Teresa quer conhecê-la.
Olhei para a fotografia sobre a mesa.
Uma mulher de cabelos claros estava ao lado da minha mãe, muito mais jovem. Havia algo no formato do rosto que reconheci imediatamente.
Não senti amor.
Não sentiria.
Ela ainda era uma desconhecida.
Mas senti curiosidade.
— Vou encontrá-la.
Dois dias depois, fui à casa de Teresa Valença.
Não era uma mansão cinematográfica. Era uma casa grande e antiga no Jardim Europa, elegante sem parecer construída para impressionar visitantes.
Teresa esperava na sala.
Quando me viu, segurou o braço da poltrona.
Não correu para me abraçar.
Agradeci silenciosamente por isso.
— Você tem os olhos da Beatriz — disse.
Sentei-me diante dela.
— Todo mundo parece saber mais sobre minha mãe do que eu.
Teresa abaixou a cabeça.
— E eu tenho culpa nisso.
Nenhuma justificativa veio depois.
Ela contou que meu avô tentou impedir o casamento dos meus pais. Disse a Beatriz que, se saísse de casa, perderia a posição na família.
Minha mãe escolheu sair.
— Ela nunca pediu dinheiro — Teresa disse. — Nem depois que você nasceu.
Meu peito apertou.
— Meu avô se arrependeu?
— Tarde demais.
— E a senhora?
Ela demorou a responder.
— Eu me arrependo de não ter ido atrás dela quando ainda dava tempo.
Pela primeira vez desde que chegara, Teresa chorou.
Não fiz o que talvez esperassem de uma neta reencontrada.
Não atravessei a sala para abraçá-la.
Fiquei sentada.
Ela tinha direito ao arrependimento.
Eu tinha direito ao meu tempo.
Na saída, encontrei uma mensagem de Augusto.
“Precisamos conversar. Quero corrigir o que aconteceu.”
Apaguei sem responder.
Naquela mesma noite, Álvaro me telefonou.
Augusto Ferraz havia procurado o escritório.
Queria cancelar formalmente o acordo que eu assinara.
— Ele não pode simplesmente apagar um documento porque mudou de ideia — Álvaro explicou. — Mas vocês podem rescindi-lo por mútuo consentimento.
— Ele perguntou alguma coisa sobre minha família?
Álvaro ficou em silêncio por tempo suficiente para eu entender.
— Perguntou.
Fechei os olhos.
— Então faça uma coisa por mim.
— Diga.
— Não conte nada sobre patrimônio, participação societária ou herança. Nada.
— Posso fazer isso.
— E diga a ele que eu só aceito conversar sobre o acordo se ele repetir na minha frente a mesma coisa que disse naquele restaurante.
— Tem certeza?
— Tenho.
Era uma decisão pequena.
Mas, pela primeira vez desde que tudo começara, eu não estava reagindo ao que Caio ou Augusto queriam.
Eu estava definindo as condições.
A reunião aconteceu dois dias depois no escritório de Álvaro.
Augusto chegou primeiro.
Caio veio logo depois.
Eu não sabia que ele estaria lá.
Parei na porta.
— Eu pedi que ele viesse — Augusto disse.
— Então a reunião acabou.
Virei-me.
— Lívia, espera — Caio pediu.
Álvaro permaneceu sentado.
— Senhor Augusto, eu recomendei expressamente que não alterasse os termos combinados.
Augusto pareceu irritado consigo mesmo.
— Certo. Foi um erro.
Olhei para Caio.
Ele parecia exausto.
— Eu posso sair — disse.
Eu deveria ter deixado.
Mas havia algo que eu precisava ouvir.
— Fica.
Sentamos.
Augusto colocou uma pasta diante de mim.
— Preparei uma rescisão completa do acordo. Não existe mais qualquer restrição de contato ou confidencialidade entre você e Caio, exceto, naturalmente, informações empresariais protegidas por lei.
— Não foi isso que eu vim perguntar.
Ele respirou fundo.
— Eu sei.
Cruzei os braços.
— Se o doutor Álvaro não tivesse entrado naquela sala, o senhor estaria aqui hoje?
Augusto não respondeu.
— Se minha mãe fosse apenas Beatriz Martins, filha de ninguém importante, o senhor estaria tentando “corrigir” alguma coisa?
Caio se moveu na cadeira.
O pai dele continuou calado.
— É uma pergunta simples — falei.
Augusto finalmente abriu a boca.
— Provavelmente não.
Caio levantou o rosto de imediato.
Eu senti a resposta como um golpe, embora fosse exatamente o que esperava.
Augusto continuou:
— E é por isso que eu precisava vir.
— Para dizer que agora sou aceitável?
— Não. Para admitir que você estava certa quando saiu daquele restaurante.
Ele me encarou.
— Eu mudei de comportamento depois de descobrir quem era sua família. Isso mostra que meu julgamento sobre você nunca foi realmente sobre caráter.
A honestidade me deixou sem reação por um instante.
— Eu fui arrogante. Usei dinheiro para tentar controlar a vida do meu filho e humilhei uma mulher que nunca me pediu nada.
Caio apertou a mandíbula.
Augusto olhou para ele.
— Mas eu também não fiz isso sozinho.
O rosto de Caio mudou.
— Pai…
— Ela merece saber.
Eu me virei para Caio.
Augusto falou antes dele:
— Três meses atrás, eu disse a Caio que não apoiaria o relacionamento. Disse que ele deveria terminar antes que ficasse sério demais.
Minha garganta secou.
— Isso eu já sei.
— O que você talvez não saiba é que ele me pediu três meses para convencê-la a aceitar a situação da família.
Meu corpo ficou imóvel.
Olhei para Caio.
— Convencer quem?
Ele fechou os olhos por um instante.
Augusto respondeu:
— Você.
Caio se levantou.
— Não foi desse jeito.
— Então diga do seu jeito — falei.
Ele respirou fundo.
— Eu achei que, com tempo, você entenderia que meu pai sempre faria parte da minha vida. Achei que conseguiria fazer vocês dois cederem.
— Cederem como?
Ele não respondeu imediatamente.
Foi quando tudo se encaixou.
As conversas adiadas.
Os pedidos de paciência.
As frases vagas sobre adaptação.
Caio não estava apenas tentando convencer o pai a me aceitar.
Também esperava que, aos poucos, eu aceitasse ser avaliada, escondida e tolerada.
Levantei-me.
Ele veio um passo na minha direção.
— Lívia…
— Não.
Minha voz saiu baixa, mas firme.
— Seu pai tentou me comprar. Você tentou me acostumar.
O rosto dele perdeu a cor.
Peguei a caneta sobre a mesa e empurrei a rescisão do acordo para Álvaro.
— Eu assino quando estiver revisado.
Depois olhei para Caio.
— Mas nosso namoro não precisa de advogado para terminar.
Saí da sala ouvindo meu nome atrás de mim.
Dessa vez, nenhum deles me seguiu.
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