A sogra barrou a avó da noiva por causa das sandálias velhas, mas a sacola mudou tudo
Parte 3
— Não, Sônia. Não vai.
Lívia falou sem se virar.
O corredor ficou em silêncio outra vez. Sônia percebeu que tinha sido ouvida e abriu a boca, mas nenhuma frase saiu imediatamente.
Lívia soltou devagar a mão da avó, virou-se e encarou a futura sogra.
— O apartamento não “entra para o casal”. Minha avó disse que pretende fazer uma doação para mim. E mesmo que depois de casar eu decida vender, alugar ou simplesmente deixar fechado, isso não é assunto seu.
— Você entendeu errado — respondeu Sônia, baixando o tom ao perceber que o filho também tinha ouvido. — Eu só estava perguntando porque vocês vão construir uma vida juntos.
— Então pergunte para nós dois — disse o noivo. — Não cochiche com a tia como se estivesse calculando o que a família da Lívia vai trazer para o casamento.
Sônia ergueu o queixo.
— Eu não estava calculando nada.
A avó de Lívia, ainda ao lado da mesa, fechou a pasta e colocou o elástico novamente. Sua expressão não era de raiva. Era algo que incomodava ainda mais: decepção.
— Minha senhora — disse ela —, eu não trouxe esses documentos para provar que sou melhor do que a roupa que estou usando.
Sônia desviou os olhos.
A idosa continuou:
— Se eu tivesse vindo com uma sacola cheia de mandioca, eu ainda seria a mesma pessoa. Se tivesse chegado sem um centavo no bolso, ainda seria avó dela.
Lívia sentiu a garganta apertar.
Aquela era justamente a parte que mais a feria. Em poucos minutos, a atitude de Sônia tinha mudado duas vezes: primeiro desprezo, depois gentileza. E nenhuma das duas mudanças tinha relação com quem sua avó era de verdade.
Tinha relação com o que Sônia acreditava que ela possuía.
— Vó, guarda tudo — pediu Lívia.
— Minha filha…
— Guarda. Não quero que ninguém fique olhando esses documentos hoje.
A avó obedeceu.
A toalha bordada voltou para dentro da sacola. Depois o álbum. Por último, a pasta com os documentos e comprovantes.
Sônia observou o movimento e disse:
— Não precisa reagir como se eu estivesse tentando tomar alguma coisa.
Lívia riu sem humor.
— A senhora acabou de perguntar se um imóvel que nem sequer foi doado ainda “entra para o casal”.
— Porque meu filho também faz parte desse casal!
— Exatamente — respondeu Lívia. — Seu filho. Não você.
O noivo fechou os olhos por um instante.
— Mãe, para.
Mas Sônia parecia mais ofendida pelo limite do que envergonhada pela própria atitude.
— Eu passei meses cuidando desse casamento. Reservei hotel, conversei com fornecedores, convidei pessoas importantes para nossa família. É claro que eu me preocupo com a vida de vocês.
— Cuidar do casamento não dá direito de humilhar a família da noiva — disse ele.
A voz do filho não saiu alta, mas havia algo definitivo nela.
Sônia encarou-o.
— Então agora eu sou a vilã?
— Ninguém falou isso. Estamos falando do que você fez hoje.
— Eu fiz porque queria evitar constrangimento!
Lívia sentiu o coração bater mais forte.
— Constrangimento para quem?
Sônia abriu as mãos.
— Para todo mundo.
— Minha avó entrando de sandália seria um constrangimento para todo mundo?
— Você sabe como certos convidados são.
— Não. Eu sei como a senhora é.
A frase fez Sônia recuar.
A tia do noivo tentou interferir:
— Gente, pelo amor de Deus. A cerimônia está atrasada. Depois vocês resolvem isso.
Lívia virou-se para ela.
— Foi a senhora que sugeriu colocar minha avó “num cantinho”, não foi?
A mulher ficou sem graça.
— Eu estava tentando ajudar.
— Então não ajude mais.
O noivo passou a mão pelo rosto. Não parecia irritado com Lívia. Parecia cansado de perceber quantas coisas tinham acontecido diante dele sem que tivesse notado.
— Mãe, eu preciso te perguntar uma coisa — disse ele. — Se essa sacola tivesse realmente só roupa velha e comida do interior, você teria pedido desculpas?
Sônia não respondeu.
— Mãe.
— Eu já pedi desculpas.
— Não foi isso que eu perguntei.
Ela apertou os lábios.
A ausência de resposta foi suficiente.
Lívia sentiu uma dor estranha no peito. Não porque esperasse perfeição daquela mulher, mas porque estava prestes a entrar em uma cerimônia que a ligaria a uma família onde alguém julgava o valor das pessoas pela aparência na porta de um hotel.
A avó aproximou-se.
— Lívia, olha para mim.
Ela obedeceu.
— Você ama esse rapaz?
— Amo.
— Ele te desrespeitou?
Lívia olhou para o noivo.
— Não.
— Ele ficou do seu lado?
— Ficou.
A avó apertou a mão dela.
— Então não tome uma decisão sobre seu casamento só por causa de mim.
Lívia respirou fundo.
— Não é só por causa da senhora.
O noivo a observou em silêncio.
Ela prosseguiu:
— É sobre o que vai acontecer depois. Se toda vez que sua mãe ultrapassar um limite eu tiver que engolir para não criar problema, eu não vou viver assim.
Ele se aproximou.
— Você não vai.
Sônia soltou uma risada curta.
— Ah, claro. Agora, no dia do casamento, é muito fácil prometer qualquer coisa.
O filho virou-se para ela.
— Não é promessa. É limite.
— Limite comigo?
— Com qualquer pessoa que desrespeite minha esposa.
A palavra “esposa” ainda nem era oficial e, mesmo assim, fez Sônia empalidecer.
Lívia percebeu algo naquele instante.
O verdadeiro problema não era se o noivo amava a mãe ou se continuaria próximo dela. O problema era se ele conseguia diferenciar carinho de obediência.
E, pela primeira vez naquela tarde, ela sentiu que ele estava fazendo essa separação.
Mesmo assim, não bastava seguir para o altar fingindo que nada tinha acontecido.
Lívia chamou a coordenadora do evento.
— Preciso mudar algumas coisas.
A mulher aproximou-se imediatamente.
— Claro.
— Minha avó vai sentar na primeira fileira, do meu lado da família. Nas fotos familiares, ela estará comigo. E o discurso que estava programado antes do jantar…
Lívia olhou para Sônia.
— Tire da programação.
Sônia arregalou os olhos.
— Como assim?
— A senhora não vai subir ao palco hoje para falar sobre união, família e respeito depois do que acabou de fazer.
— Você está me punindo no casamento do meu filho?
— Estou evitando que alguém diga no microfone coisas que não pratica na porta do salão.
O noivo ficou ao lado de Lívia.
— Pode tirar o discurso.
A coordenadora assentiu e saiu rapidamente.
Sônia olhou para o filho como se esperasse que ele voltasse atrás.
Ele não voltou.
A avó, porém, tocou novamente no braço da neta.
— Eu não quero que essa história cresça mais do que precisa.
— Não vai crescer, vó. Mas também não vai ser escondida para proteger quem fez errado.
A idosa não discutiu.
O celebrante apareceu ao fundo do corredor, acompanhado por um funcionário do hotel. A cerimônia já estava quase meia hora atrasada.
— Podemos começar quando vocês estiverem prontos — disse ele com discrição.
Lívia olhou para o noivo.
— Eu preciso de cinco minutos.
Ele concordou.
Os dois se afastaram alguns passos, ficando perto de uma janela no fim do corredor.
— Você quer cancelar? — perguntou ele.
Não havia acusação em sua voz.
Lívia percebeu que ele estava realmente disposto a ouvir a resposta.
— Não quero casar com sua mãe.
Ele quase sorriu, mas conteve.
— Ainda bem.
— Estou falando sério.
— Eu também.
Ela respirou fundo.
— Eu não quero que daqui a seis meses ela faça isso de novo com minha avó, com meu pai, com qualquer pessoa da minha família, e depois você me peça para relevar porque “ela é assim”.
— Eu não vou pedir.
— E se ela fizer?
— Eu vou lidar com ela antes que você precise.
Lívia o encarou por alguns segundos.
— Não quero que você rompa com sua mãe por minha causa.
— Você não está pedindo isso.
— Então o que você está fazendo?
Ele olhou na direção de Sônia.
— Entendendo que ser filho não significa aceitar qualquer coisa.
Lívia sentiu os olhos arderem.
Não era uma solução mágica. Não apagava a cena na entrada. Não garantia que tudo seria fácil depois.
Mas era uma resposta adulta.
Ela assentiu.
— Então vamos casar.
O alívio no rosto dele durou pouco, porque a voz de Sônia voltou a surgir atrás deles.
— Eu só espero que, depois do casamento, vocês não esqueçam quem sempre esteve ao lado de vocês.
O noivo se virou.
— Mãe, não começa.
— Eu estou falando uma coisa normal.
Lívia voltou para perto dela.
— Hoje, quem quase ficou do lado de fora foi a minha avó.
Sônia respirou fundo, já sem conseguir manter o sorriso social.
— Porque eu não queria que os convidados olhassem para aquela roupa e começassem a fazer comentários.
— Então era isso.
— Lívia…
— A senhora tinha vergonha dela.
— Eu tinha medo do que iam pensar.
— É a mesma coisa.
Sônia perdeu a paciência.
— Tá bom! Eu não queria que pessoas importantes para nossa família olhassem para ela e pensassem que você vinha de uma família daquele nível!
Ninguém respondeu.
A própria Sônia percebeu tarde demais o que havia acabado de dizer.
Lívia ficou completamente imóvel.
O noivo encarou a mãe como se não a reconhecesse.
A avó fechou os olhos por um instante.
Lívia sentiu a raiva desaparecer e ser substituída por uma calma dura.
Então tirou o véu que estava preso ao penteado e o entregou para a madrinha ao lado.
— Agora nós vamos resolver isso antes de eu entrar naquele salão.
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