Descobri que meu marido mantinha outra casa com a mulher que eu sustentei por seis anos
Parte 3
Caio se levantou tão depressa que a cadeira deslizou para trás.
— Você não vai levar um problema pessoal para uma reunião de sócios.
Continuei guardando os documentos na pasta.
— Não vou levar a traição. Vou levar uma transferência de R$ 4 milhões sem documentação que justifique uma finalidade empresarial. A diferença entre as duas coisas é justamente o que você parece não querer entender.
Ele se aproximou da mesa.
— Eu disse que ia regularizar.
— Então regularize. Apresente o contrato do suposto ativo estratégico, a avaliação, a autorização correspondente e a razão pela qual esse ativo foi registrado no nome da sua amante.
Caio abriu a boca, mas nada saiu.
Pela primeira vez, eu não precisava gritar para perceber que tinha atingido o ponto que ele não conseguia explicar.
Ele saiu da sala batendo a porta.
Roberto entrou alguns minutos depois.
— Você está bem?
Olhei para ele.
— Não. Mas consigo trabalhar.
Ele assentiu, sem fazer perguntas.
Passei o restante da manhã revisando documentos. Não porque imaginasse encontrar uma conspiração gigantesca, mas porque precisava saber até onde o comportamento de Caio tinha ido.
A maior parte das operações estava correta.
Aquilo, de algum modo, tornou tudo ainda mais doloroso.
Caio não era um homem descontrolado que destruía tudo o que tocava. Ele sabia trabalhar, sabia administrar, sabia seguir procedimentos quando queria.
Naquela transferência, ele simplesmente tinha escolhido não seguir.
Porque acreditava que comigo poderia fazer o que quisesse.
Entre os documentos havia outras despesas relacionadas ao mesmo projeto: hospedagens em fins de semana, restaurantes caros e compras que haviam sido lançadas como reuniões com clientes.
Os valores eram pequenos perto dos R$ 4 milhões.
Não provavam sozinhos nada extraordinário.
Mas as datas coincidiam com muitos dos fins de semana em que Caio dizia estar trabalhando.
Não precisei imaginar cenas.
Já tinha visto o suficiente.
No início da tarde, minha sogra apareceu na empresa sem avisar.
A recepcionista ligou perguntando se eu queria recebê-la.
Pensei em recusar.
Depois aceitei.
Ela entrou na minha sala apertando a bolsa contra o corpo.
— Helena, isso está indo longe demais.
— Concordo.
Ela pareceu surpresa com a minha resposta.
— Então pare antes que vocês destruam tudo.
— “Vocês”?
— Você sabe o que quero dizer.
Apontei para a cadeira à minha frente.
— Sente-se.
Ela continuou de pé.
— Caio errou em não contar antes. Mas agora tem uma criança envolvida.
— A criança não desviou R$ 4 milhões.
— Não chame assim. Caio disse que devolveria.
— Quando?
Ela desviou os olhos.
— Depois.
— Depois de quê?
Não houve resposta.
Foi aí que uma lembrança me atingiu.
A mensagem de Caio dizia que a mãe dele já sabia da gravidez.
Mas minha sogra acabara de admitir que também sabia do dinheiro.
— Há quanto tempo a senhora sabe do apartamento?
Ela ficou imóvel.
— Isso importa?
— Muito.
— Helena…
— Há quanto tempo?
Ela puxou a cadeira e sentou.
— Alguns meses.
Senti minhas mãos esfriarem.
— E a fotografia de casamento?
Seu rosto denunciou a resposta antes das palavras.
— Foi só uma sessão de fotos. Não houve casamento civil.
— A senhora estava lá?
Ela não respondeu.
Não precisei perguntar novamente.
Aquilo foi pior do que eu esperava.
Não porque mudasse a responsabilidade de Caio, mas porque eliminava a última dúvida sobre o nível de humilhação a que tinham me submetido.
A família que eu havia sustentado emocionalmente durante anos sabia que existia outra casa.
Sabia de Lívia.
Sabia da gravidez.
E continuava jantando à minha mesa.
Minha sogra começou a falar depressa.
— Você precisa entender uma mãe. Eu sempre quis um neto. Caio também. Você vive ocupada, sempre adiando…
Levantei a mão.
— Não continue.
Ela se calou.
— A senhora pode amar seu neto. Pode apoiar seu filho. Pode escolher ficar do lado deles. Mas não vai mais entrar na minha casa, comer na minha mesa e fingir que não sabe de nada.
— Helena, não faça isso.
— A senhora já fez sua escolha há meses.
Ela se levantou.
— Você vai se arrepender se destruir o casamento por orgulho.
Olhei diretamente para ela.
— O casamento foi destruído quando seu filho montou outra casa e levou para lá uma mulher que eu ajudei durante seis anos. Eu só parei de fingir que ele ainda existe.
Minha sogra saiu sem se despedir.
Quando a porta fechou, minhas pernas perderam força.
Sentei-me.
A dor que eu vinha segurando desde o apartamento finalmente apareceu de um jeito que nenhum relatório financeiro conseguia controlar.
Chorei.
Não por muito tempo.
Mas chorei até sentir o rosto quente e a garganta doer.
Lembrei de Lívia chegando à minha casa pela primeira vez, aos dezenove anos, tímida demais para olhar diretamente para mim.
Uma professora havia me contado que ela estava prestes a abandonar os estudos por falta de dinheiro.
Eu tinha pagado mensalidades, material, transporte e depois cursos adicionais.
Quando se formou, ela me abraçou e disse:
— Se um dia eu puder retribuir tudo o que você fez, eu vou.
Agora eu sabia como ela tinha retribuído.
Naquela noite, não voltei para casa imediatamente.
Fui a um escritório de advocacia indicado havia anos pelo meu pai para questões societárias e patrimoniais. Não pedi que “destruíssem” Caio nem que inventassem uma forma de tomar tudo dele.
Expliquei o casamento, o regime de bens, a empresa, o apartamento registrado em nome de Lívia e o dinheiro retirado da conta empresarial.
A advogada ouviu sem interromper.
Depois fez perguntas objetivas.
Quem era sócio de quê?
De onde vinha o capital inicial?
Como o investimento de R$ 4 milhões havia sido formalizado?
Quais poderes Caio possuía como diretor?
O apartamento tinha sido pago integralmente ou financiado?
Eu não sabia responder tudo.
E aquilo me fez perceber o quanto eu tinha confiado nele.
— Não vamos presumir que o imóvel é seu, nem que automaticamente pertence à empresa — ela explicou. — Primeiro precisamos seguir a origem do dinheiro e verificar a natureza jurídica de cada operação. O que você tem hoje é um indício importante de uso indevido de recursos. Agora precisamos separar patrimônio pessoal, patrimônio do casal e patrimônio da sociedade.
Era menos cinematográfico do que eu imaginava.
E muito mais seguro.
— E o divórcio?
— Se você decidiu, podemos preparar. Mas não assine nenhuma proposta feita por ele sem revisar.
Contei sobre o envelope encontrado na cama.
Ela pediu que eu enviasse uma cópia.
Quando terminou de ler, franziu a testa.
— Isso foi preparado antes de você descobrir a relação?
— Sim.
— Então ele estava planejando a separação enquanto pedia seu dinheiro.
Fechei os olhos.
Ouvir outra pessoa dizer aquilo em voz alta transformou a dor em algo concreto.
Caio não tinha cometido um erro numa noite ruim.
Ele vinha organizando uma vida na qual eu continuaria financiando a transição sem saber.
No dia seguinte ocorreu a reunião societária.
Havia cinco pessoas na sala: eu, Caio, Roberto e os outros dois sócios minoritários.
Não levei fotografias.
Não falei da camisola.
Não mencionei a gravidez.
Entreguei apenas os documentos financeiros.
Expliquei que R$ 4 milhões tinham entrado na empresa com finalidade emergencial e saído dois dias depois para uma pessoa física sem contrato de aquisição anexado, embora o lançamento interno citasse um “ativo estratégico”.
Um dos sócios olhou para Caio.
— Você consegue apresentar a documentação?
Caio cruzou os braços.
— Foi uma operação temporária.
— Isso não responde.
— Eu sou diretor executivo. Tenho autonomia.
Roberto falou pela primeira vez:
— Autonomia dentro dos limites previstos. Uma transferência desse valor precisa de lastro documental.
Caio virou-se para mim.
— Você colocou todo mundo contra mim.
— Eu não escrevi esses registros.
Ele bateu a mão na mesa.
— O apartamento vai valorizar. Eu pretendia transferir o ativo depois.
— Para quem? — perguntei. — Para a empresa?
Silêncio.
Um dos sócios perguntou:
— O imóvel está registrado em nome da empresa?
— Ainda não.
— Então em nome de quem está?
Caio apertou a mandíbula.
Eu respondi:
— Lívia Soares.
O nome não significava nada para os outros dois.
Até que um deles perguntou:
— Qual a relação dela com a empresa?
Caio se levantou.
— Isso é uma armadilha.
— É uma pergunta — respondi.
Ele olhou ao redor.
Ninguém o defendeu.
A decisão tomada naquela manhã não foi demiti-lo nem expulsá-lo da companhia.
Seria precipitado e, dependendo do contrato social, nem sequer poderia ser feito daquela forma.
Mas os sócios aprovaram a suspensão temporária da autonomia de Caio para movimentações extraordinárias e exigiram prestação de contas completa daquela operação.
Até a conclusão da análise, qualquer pagamento acima do limite normal passaria por dupla aprovação.
Caio saiu da reunião com o rosto vermelho.
No corredor, segurou meu braço.
— Você está acabando comigo.
Soltei-me.
— Não. Estou impedindo que você continue fazendo o que quer sem responder por isso.
— Você quer vingança.
— Se eu quisesse vingança, teria trazido a foto de vocês dois para a reunião. Eu trouxe extratos.
Ele ficou me encarando.
— Lívia está apavorada.
— Ela tem motivos.
— Ela está grávida!
— E continua sendo adulta.
Caio passou a mão pelo cabelo.
Pela primeira vez, sua voz baixou.
— Helena, a gente pode resolver isso.
Quase ri.
— Você mandou eu sair da casa que comprou para ela. Me chamou de mulher inútil. Disse que nosso casamento podia continuar desde que eu aceitasse o filho de vocês dentro dele. E agora quer resolver?
— Eu estava nervoso.
— Você teve meses para ficar menos nervoso.
Ele respirou fundo.
— O que você quer?
A pergunta me atingiu.
Até então, todos pareciam saber o que eu deveria querer.
Minha sogra queria que eu aceitasse.
Caio queria preservar a empresa, a amante, o filho e a imagem.
Lívia queria dar à própria escolha a aparência de um sacrifício.
Mas ninguém tinha perguntado o que eu queria.
Respondi devagar:
— Quero saber exatamente onde foi parar cada real que saiu por sua decisão. Quero me divorciar sem assinar uma mentira. E quero que você pare de usar a minha incapacidade de engravidar como justificativa para o seu caráter.
O rosto dele endureceu.
— Então acabou.
— Acabou quando você decidiu construir outra casa.
Naquela tarde, fiz uma coisa simples.
Troquei as senhas das minhas contas pessoais, cancelei procurações particulares que ainda davam a Caio autorização para operar investimentos em meu nome e separei toda a documentação patrimonial que estava guardada em casa.
Não tomei nada dele.
Apenas fechei as portas que eu mesma tinha deixado abertas por confiança.
Ao chegar ao apartamento, encontrei Caio esperando na sala.
Desta vez, ele não estava arrogante.
Segurava o telefone com força.
— Lívia me ligou.
Coloquei minha bolsa sobre a mesa.
— E?
— Ela quer vender o apartamento.
— Problema de vocês.
— Não é tão simples.
Ele se aproximou.
— O imóvel foi comprado com parte daquele dinheiro.
Fiquei parada.
Caio continuou:
— E ela está dizendo que não vai devolver nada.
Foi naquele instante que percebi que a aliança entre os dois começava a rachar no único lugar em que nenhum deles parecia disposto a ceder.
O dinheiro.
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