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No nosso aniversário de sete anos, meu marido pediu o divórcio porque a amante estava grávida

Parte 3

Nos dias seguintes, Rafael continuou trabalhando, participando de reuniões e assinando contratos como sempre havia feito. Por fora, nada parecia diferente. Por dentro, cada detalhe do apartamento novo o lembrava de alguma coisa que tinha sido apagada.

Lívia percebeu.

— Você fica trancado naquele escritório toda noite.

— Estou trabalhando.

— Não mente para mim. Você está lendo os cadernos dela.

Rafael levantou os olhos do notebook.

— São meus também, de certa forma.

Lívia riu, sem humor.

— Não. São da sua ex. E você deveria ter jogado fora.

— Ela escreveu sobre a nossa vida.

— Exatamente. A vida que acabou.

Rafael fechou o notebook.

— Para você é simples assim?

— Foi você que pediu o divórcio, Rafael.

A frase o atingiu porque era verdadeira.

Não havia ninguém para culpar.

Nem Marina.

Nem Lívia.

Ele escolhera.

Escolhera esconder o relacionamento com Lívia durante meses. Escolhera esperar a gravidez avançar. Escolhera anunciar o fim do casamento no aniversário de sete anos. Escolhera sair naquela manhã como se estivesse resolvendo um compromisso administrativo.

— Eu sei — respondeu.

Lívia o observou, desconfiada.

— Então não começa a transformar a Marina numa santa só porque ela foi embora sem fazer escândalo.

— Eu não estou fazendo isso.

— Está, sim. Você lê aqueles diários e depois fica me olhando como se eu tivesse destruído seu casamento sozinha.

Rafael respirou fundo.

— Eu era casado. A responsabilidade era minha.

O rosto de Lívia mudou.

Até então, Rafael sempre tratara o relacionamento deles como consequência de um casamento que já não funcionava. Nunca tinha dito aquilo de forma tão direta.

— Engraçado — ela respondeu. — Quando você estava comigo, dizia que já não existia casamento de verdade.

— Era o que eu dizia.

— E agora?

Rafael não respondeu imediatamente.

— Agora eu acho que usei isso para facilitar as coisas para mim.

Lívia ficou alguns segundos parada.

— E eu sou o quê? Um erro?

— Você está grávida da minha filha. Eu vou assumir tudo que é minha responsabilidade. Mas isso não apaga o jeito como comecei essa relação.

Lívia saiu do escritório batendo a porta.

Rafael ficou sozinho.

Não se sentiu melhor por ter admitido aquilo.

Só mais lúcido.

Na manhã seguinte, a secretária trouxe uma pasta para assinatura.

— Senhor Rafael, o advogado perguntou quando pretende concluir o divórcio. Ainda faltam algumas providências do processo consensual.

Ele levantou a cabeça.

— A Marina entrou em contato?

— Diretamente, não. O advogado dela enviou a documentação necessária. Ela pediu que toda comunicação seja feita por meio do escritório.

— Advogado dela?

— Sim.

Aquilo o surpreendeu.

Marina sempre deixara as questões burocráticas nas mãos dele.

Durante o casamento, Rafael cuidava dos bancos, investimentos, seguros e contratos. Marina assinava quando necessário e raramente fazia perguntas.

Agora ela tinha um advogado próprio.

— Tem endereço?

— Profissional, apenas. O escritório pediu que os dados pessoais não sejam repassados.

Rafael segurou a caneta.

Por um instante, pensou em pedir à secretária que descobrisse onde Marina estava.

Tinha dinheiro.

Tinha funcionários.

Provavelmente conseguiria a informação.

Mas então se lembrou da última mensagem dela.

“Assinei. Amanhã vou embora.”

Marina não tinha pedido para ser encontrada.

Rafael assinou os documentos.

— Não procure nada além do que for necessário para o processo.

A secretária assentiu.

Naquela tarde, ele recebeu outro documento.

O apartamento.

Ao revisar o primeiro acordo, o advogado de Marina havia apontado uma contradição: Rafael escrevera que o imóvel ficaria integralmente para ela, mas depois iniciara a reforma como se continuasse sendo seu.

A mensagem do advogado era objetiva: ou Rafael cumpria o acordo e entregava o imóvel nas condições pactuadas, ou as partes deveriam renegociar formalmente a divisão patrimonial.

Rafael sentiu o rosto esquentar.

Só naquele momento percebeu a dimensão do que fizera.

Tinha dito a Marina que o apartamento seria dela.

Horas depois, ordenara que ela saísse porque Lívia queria morar ali.

Nem sequer tinha percebido a incoerência.

Talvez porque, durante anos, estivesse acostumado a considerar que tudo na casa também estava sob sua decisão.

Naquela noite, mostrou o documento a Lívia.

— Vamos ter que sair daqui.

Ela demorou alguns segundos para entender.

— Como assim?

— O apartamento ficou para Marina no acordo.

— Mas você reformou tudo para mim.

— Eu não podia ter feito isso antes da conclusão da divisão.

— Então muda o acordo.

— Ela não é obrigada a aceitar.

Lívia levou a mão à barriga.

— Rafael, eu escolhi tudo para nossa filha.

— Eu sei.

— Você me prometeu esta casa.

— Prometi uma coisa que juridicamente já tinha concordado em entregar para outra pessoa.

— Você está brincando comigo.

— Não.

Lívia começou a andar pela sala.

— Então fala com ela. Ela nem quer morar aqui! Foi embora para sabe-se lá onde. Compra a parte dela.

— Podemos fazer uma proposta pelo advogado.

— Não quero proposta. Quero que você resolva.

Rafael levantou os olhos.

Aquela frase lhe era familiar.

“Resolve.”

Durante anos, pessoas ao redor dele haviam se acostumado com sua capacidade de fazer as coisas acontecerem.

Marina também.

Só que Marina costumava pedir muito pouco.

Lívia queria que qualquer problema desaparecesse porque Rafael tinha dinheiro para fazê-lo desaparecer.

— Eu vou resolver dentro do que for correto.

— Correto?

Ela soltou uma risada curta.

— Desde quando você ficou tão preocupado com o que é correto?

Rafael não respondeu.

A pergunta era justa.

Dois dias depois, o advogado encaminhou a resposta de Marina à proposta de compra.

Ela não queria vender.

Também não pretendia voltar a morar no apartamento.

Queria colocá-lo à venda depois da formalização do divórcio e destinar o valor que lhe cabia a um novo começo.

A mensagem terminava com uma frase:

“Não tenho interesse em manter patrimônio que me obrigue a continuar vinculada à vida do senhor Rafael.”

Ele leu aquilo três vezes.

Lívia, ao descobrir, explodiu.

— Isso é vingança.

— Não.

— Claro que é! Ela sabe que estou grávida.

— O imóvel é dela pelo acordo que eu mesmo preparei.

— E você simplesmente vai aceitar?

— O que você quer que eu faça?

— Convence ela.

Rafael recostou-se no sofá.

— Ela não quer falar comigo.

— Então apareça na frente dela.

— Eu nem sei onde ela está.

— Descubra.

Rafael ficou em silêncio.

Meses antes, teria feito exatamente isso.

Usaria contatos, funcionários ou algum conhecido em comum.

Dessa vez, recusou.

— Não.

— Não?

— Se ela não quer contato, eu vou respeitar.

Lívia o encarou como se tivesse diante de si outro homem.

— Você está escolhendo ela.

— Não. Estou parando de escolher sempre o que é mais conveniente para mim.

Lívia apertou os lábios.

— E nossa filha?

— Nossa filha terá casa, assistência, segurança e tudo de que precisar. Mas não vou usar uma criança para tomar de Marina algo que eu mesmo disse que seria dela.

A discussão terminou sem acordo.

Naquela noite, Lívia dormiu no quarto de hóspedes.

Rafael abriu o último diário de Marina mais uma vez.

Dessa vez percebeu que havia páginas arrancadas no final.

Aquilo o deixou inquieto, mas não porque imaginasse algum grande segredo.

As bordas irregulares diziam outra coisa.

Marina havia decidido levar consigo uma parte da própria história e deixar apenas aquilo que não fazia mais questão de guardar.

Rafael fechou o caderno.

Em Salvador, Marina estava sentada diante de uma pequena mesa perto da janela de uma pousada no bairro do Rio Vermelho.

Fazia semanas que não escrevia diário.

Nos primeiros dias, caminhara muito pela cidade.

Fotografava fachadas, vendedores, o mar, mulheres conversando nas portas, crianças correndo, barcos ao longe.

Usava a câmera antiga que quase deixara para trás.

A mesma que Rafael considerava ultrapassada.

Certa tarde, enquanto fotografava, uma dona de café elogiou as imagens e perguntou se Marina trabalhava com aquilo.

Marina quase respondeu “não”.

Depois corrigiu:

— Já trabalhei. Quero voltar.

A mulher precisava de fotos para o cardápio e para as redes sociais.

O primeiro trabalho pagou pouco.

Mas, quando Marina recebeu o dinheiro, ficou olhando a notificação bancária com uma emoção que não sentia havia anos.

Não porque precisasse urgentemente daquele valor.

Mas porque era algo feito por ela.

Nos dias seguintes, surgiram mais pequenos trabalhos por indicação.

Nada espetacular.

Nada que mudasse sua vida de uma hora para outra.

Só o começo.

Marina alugou um apartamento simples por alguns meses.

Comprou uma mesa usada.

Uma cadeira.

Duas plantas.

Uma chaleira.

Quando colocou a primeira fotografia impressa na parede, percebeu que sorria.

O advogado cuidava do divórcio em São Paulo.

Marina havia pedido apenas duas coisas: que o acordo fosse respeitado e que Rafael não recebesse seu endereço.

Ela não queria vingança.

Não queria assistir à queda de ninguém.

Queria distância.

Mas o nome dele ainda aparecia em situações que ela não podia evitar.

Documentos.

Assinaturas.

Mensagens do escritório.

Numa tarde, o advogado ligou.

— Rafael concordou em devolver o imóvel conforme o acordo original. A questão da reforma será resolvida sem custo para você. Depois da homologação, podemos iniciar a venda, como pediu.

Marina apoiou a câmera sobre a mesa.

— Ele discutiu?

— Não. O advogado dele disse que houve um erro de interpretação da parte dele e que será corrigido.

Marina achou estranho.

O Rafael que conhecia discutiria.

Tentaria negociar.

Argumentaria que a reforma valorizara o imóvel.

Em vez disso, tinha aceitado.

— Certo — respondeu.

— Há mais uma coisa. Ele pediu para enviar uma mensagem pessoal. Eu disse que só faria se você autorizasse.

Marina demorou.

— O que ele quer dizer?

— Não sei. Ele pediu para escrever e deixar que você decida se quer receber.

Ela olhou pela janela.

Durante anos, esperara palavras de Rafael.

Um pedido de desculpas.

Uma pergunta.

Uma explicação.

Agora, quando finalmente podia recebê-las, não tinha certeza de que ainda queria.

— Pode enviar para você — disse. — Se tiver alguma coisa relacionada ao processo, me repasse. O resto não.

— Entendido.

Marina encerrou a ligação.

Naquela noite, demorou para dormir.

Não porque estivesse arrependida.

Mas porque entendeu que seguir em frente não significava deixar de sentir.

Significava sentir sem voltar.

Em São Paulo, Rafael escreveu a mensagem.

Levou quase uma hora.

Apagou frases que tentavam justificar demais.

Apagou explicações sobre trabalho.

Apagou a parte em que dizia que o casamento já estava ruim.

No fim, sobraram poucas linhas.

“Eu li seus diários. Eu não deveria ter lido algo tão pessoal sem sua autorização, mas li. Não vou pedir que você me perdoe nem que responda. Só quero reconhecer uma coisa que eu nunca reconheci: você não fracassou no nosso casamento. Eu traí você, fui covarde ao esconder isso e tratei anos da sua vida como se fossem um detalhe administrativo. Também fui cruel em momentos em que você precisava de mim, especialmente quando interrompeu aquela gravidez. Eu me lembro agora do que fiz e não existe desculpa suficiente.”

Rafael releu.

Acrescentou:

“O apartamento será entregue conforme o acordo. Não vou tentar encontrar você. Desejo que consiga construir a vida que eu deveria ter respeitado enquanto ainda fazia parte dela.”

Enviou ao advogado.

Dois dias depois, recebeu a resposta profissional:

“A senhora Marina tomou conhecimento de que houve uma mensagem pessoal, mas optou por não recebê-la. Quanto às questões jurídicas, mantém-se o procedimento já acordado.”

Rafael segurou o celular.

Doeu.

Mas não havia nada a reclamar.

Marina passara anos aceitando silêncios que ele escolhera.

Agora era ela quem escolhia não ouvi-lo.

No mesmo dia, ao chegar em casa, encontrou várias malas na sala.

Lívia estava de braços cruzados.

— Vou para casa da minha mãe.

— Por quê?

— Porque eu não aguento mais morar num lugar onde você anda como se estivesse de luto pela sua ex.

— Lívia…

— Não. Agora você vai me ouvir. Você queria esse bebê. Disse que ia ficar comigo. Disse que nós seríamos uma família. E desde que achou aqueles cadernos, só pensa na Marina.

Rafael se levantou.

— Eu vou assumir nossa filha. Isso nunca esteve em discussão.

— E eu?

Ele demorou.

E aquele atraso respondeu antes das palavras.

Lívia começou a chorar.

— Então era mentira.

— Não era mentira quando eu disse.

— Isso é pior.

Rafael passou a mão pelo rosto.

— Eu comecei nossa relação enquanto ainda era casado e fingi que bastava terminar um casamento para tudo se tornar limpo. Não basta.

— Está dizendo que não me ama?

— Estou dizendo que não sei quanto do que senti por você era amor e quanto era uma fuga de uma vida que eu mesmo deixei vazia.

Lívia levou a mão à barriga.

— E agora você descobre isso quando estou grávida?

— Eu deveria ter descoberto antes.

— Pois não descobriu.

Ela enxugou as lágrimas com raiva.

— E eu não vou ficar esperando você decidir se quer ser meu marido ou um homem arrependido da ex.

Rafael não tentou impedir que ela saísse.

Ajudou a colocar as malas no carro.

Antes de entrar, Lívia disse:

— Você perdeu a Marina. Talvez agora perca nós duas também.

Rafael respondeu com calma:

— Eu não vou abandonar minha filha. Mas não vou prometer a você um casamento só porque tenho medo das consequências das minhas escolhas.

Lívia entrou no carro.

Rafael ficou parado enquanto as lanternas vermelhas desapareciam.

Naquela noite, voltou ao apartamento vazio.

Sentou-se no chão da sala recém-reformada.

Ali não havia mais plantas.

Não havia canecas.

Não havia bilhetes.

Não havia Marina.

E, pela primeira vez, Rafael não tentou convencer a si mesmo de que aquele vazio era culpa de alguém além dele.

Em Salvador, Marina recebeu uma proposta para fotografar uma pequena pousada e produzir material para uma campanha digital.

O valor era muito maior do que os trabalhos anteriores.

Ela aceitou.

Na manhã marcada, colocou a câmera no ombro, fechou a porta e desceu as escadas.

Antes de sair, recebeu uma mensagem do advogado:

“O divórcio foi homologado. A partir de hoje, você está oficialmente divorciada.”

Marina parou no último degrau.

Leu de novo.

Sete anos.

Uma assinatura.

Meses de distância.

E agora, oficialmente, estava terminado.

Ela não chorou.

Guardou o celular e caminhou até a rua.

Mas, depois de alguns passos, voltou.

Subiu até o apartamento, abriu a caixa de metal que havia levado consigo e retirou as páginas finais do sétimo diário.

Aquelas eram as páginas que Rafael nunca encontraria.

Marina sentou-se à mesa.

Na última delas, escrita ainda em São Paulo, na madrugada antes de partir, havia uma frase:

“Se um dia ele perceber o que perdeu, espero já ter aprendido que não preciso voltar só porque finalmente fui valorizada.”

Marina fechou o diário.

Pegou uma caneta.

E escreveu logo abaixo:

“Hoje eu aprendi.”

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