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Duas semanas depois de dormir por engano com um cardiologista, voltei ao hospital grávida e achei que ele tinha namorada

Parte 3

Não gostei da forma como ele disse “se esse bebê for meu”.

Eu sabia que era uma frase racional. Nós tínhamos nos conhecido em uma noite da qual nenhum dos dois guardava lembranças completas, então Lucas não tinha obrigação de aceitar qualquer coisa sem questionar.

Mesmo assim, doeu.

— Você acha que eu estou mentindo? — perguntei.

— Não.

— Mas acha que talvez o filho não seja seu.

— Acho que nós dois estamos numa situação em que precisamos separar confiança de certeza. Eu não conheço sua vida e você não conhece a minha.

A resposta era justa. Talvez por isso fosse ainda mais difícil de ouvir.

— Então faça o que precisar fazer — respondi. — Mas até existir alguma certeza, não precisa se envolver.

— Não foi isso que eu disse.

— É o que eu estou dizendo.

Desliguei antes que ele respondesse.

Nos dias seguintes, tentei continuar minha rotina como se a minha vida não tivesse mudado. Funcionava por meia hora, às vezes uma hora inteira. Depois eu lembrava que havia um resultado positivo no celular e tudo voltava.

Marquei uma consulta com uma obstetra que não trabalhava diretamente com Lucas. Não contei quem era o possível pai. Disse apenas que tinha descoberto uma gestação muito inicial e precisava confirmar se tudo estava evoluindo normalmente.

Ela pediu repetição do beta-hCG.

O segundo resultado aumentou como esperado.

Naquele momento, a possibilidade começou a ganhar peso real.

Eu estava grávida.

Lucas me mandou duas mensagens.

Na primeira, perguntou se eu tinha repetido o exame.

Na segunda, no dia seguinte, escreveu apenas:

“Não quero invadir. Só preciso saber se você está bem.”

Demorei horas para responder.

“Estou.”

Ele não insistiu.

Isso deveria ter me aliviado, mas causou o efeito contrário.

Parte de mim queria que ele desaparecesse para que eu pudesse assumir tudo sozinha e não ter que lidar com mais uma variável. Outra parte ficava irritada quando ele respeitava exatamente a distância que eu tinha pedido.

Era absurdo.

Quase uma semana depois, recebi uma ligação da recepção da clínica confirmando a data do primeiro ultrassom.

Desliguei e olhei para o contato de Lucas.

Não precisava chamá-lo.

Eu tinha repetido isso para mim mesma várias vezes.

Mesmo assim, escrevi:

“Vou fazer o primeiro ultrassom na terça, às 16h.”

A resposta veio quase imediatamente.

“Posso ir?”

Fiquei encarando aquelas duas palavras.

“Pode.”

Na terça-feira, cheguei dez minutos antes.

Lucas já estava lá.

Não usava jaleco. Vestia camisa azul-escura e calça social, e parecia muito diferente do homem desgrenhado do hotel e do médico frio do consultório.

Quando me viu, levantou.

— Oi.

— Oi.

Era ridículo perceber que, depois de tudo o que tinha acontecido entre nós, nós ainda não sabíamos conversar como duas pessoas normais.

Sentamos lado a lado.

Lucas manteve uma distância respeitosa.

— Você está enjoando?

— Um pouco.

— Está conseguindo comer?

Virei o rosto para ele.

— Você prometeu não fazer consulta comigo.

— Isso foi uma pergunta.

— De médico.

— Certo. Desculpa.

Quase sorri.

Fomos chamados.

Durante o exame, fiquei tão tensa que minhas mãos gelaram.

A médica explicou que a gestação estava localizada dentro do útero e compatível com a idade gestacional estimada. Ainda era cedo, por isso cada acompanhamento teria seu momento.

Eu ouvi cada palavra como se estivesse do outro lado de uma parede.

Lucas não interrompeu.

Não tentou transformar aquilo em uma aula.

Só ficou perto.

Quando a médica indicou na tela a pequena estrutura que confirmava aquela nova realidade, meu peito apertou.

Olhei para Lucas.

Ele estava encarando o monitor.

A expressão profissional tinha desaparecido.

Seus olhos estavam úmidos.

Aquilo me atingiu de uma forma que eu não esperava.

Ele percebeu que eu o observava e desviou o rosto.

Na saída, caminhamos até um café perto da clínica.

— Quer alguma coisa? — perguntou.

— Água.

Ele comprou duas garrafas e sentou à minha frente.

Durante alguns minutos, nenhum de nós falou.

Foi Lucas quem quebrou o silêncio.

— Eu pensei muito sobre aquela noite.

Meu estômago se contraiu.

— E lembrou de alguma coisa?

— Algumas imagens. Você entrou achando que era seu quarto. Eu estava febril e tinha tomado medicação. Você estava bêbada. Nenhum de nós estava em boas condições para tomar decisões.

Abaixei os olhos.

— Eu ainda me sinto culpada.

— E eu também.

Levantei a cabeça.

— Por quê?

— Porque na manhã seguinte eu tratei tudo como se fosse uma situação constrangedora que acabaria quando você saísse pela porta.

Ele girou a garrafa entre os dedos.

— E depois dei uma resposta irresponsável quando você perguntou sobre gravidez.

— Você disse “não” com tanta certeza que eu acreditei.

— Eu sei.

Pela primeira vez, ouvi arrependimento verdadeiro na voz dele.

— Não vou fingir que estava agindo como médico naquela hora. Eu estava tentando encerrar uma conversa que me deixava desconfortável. Foi errado.

Aquilo importava.

Não porque resolvesse o problema, mas porque ele não tentou inventar desculpas.

— Quando fui procurar você no hospital, achei que nem lembrasse de mim.

Lucas fez uma careta.

— Eu não reconheci você imediatamente.

— Isso ficou bem claro.

— Eu tinha uma imagem sua completamente diferente na cabeça.

— Como assim?

Ele pareceu constrangido.

— Cabelo bagunçado. Maquiagem borrada. Cara de quem estava prestes a fugir pela janela.

— Que romântico.

Ele riu.

Foi a primeira vez que nós dois rimos da mesma coisa.

Então me lembrei da médica.

— E aquela sua colega?

Lucas parou de sorrir.

— O que tem ela?

— Ela realmente não é sua namorada?

— Não.

— Nunca foi?

— Nunca.

— Mas ela gosta de você.

— Provavelmente.

A honestidade me surpreendeu.

— E você?

— Nunca dei esperança. Só deveria ter colocado limites de forma mais clara antes.

Ele apoiou os braços na mesa.

— Depois que você saiu naquele dia, eu conversei com ela. Pedi para que não voltasse a fazer aquele tipo de gesto comigo.

— Por minha causa?

— Não. Porque eu percebi que estava permitindo uma situação ambígua simplesmente porque era mais fácil ignorar.

Aquilo me fez pensar em quantas vezes eu mesma tinha feito exatamente isso em outras áreas da vida: deixado pequenas coisas desconfortáveis acontecerem porque parecia menos trabalhoso do que estabelecer limites.

Lucas continuou:

— Mas não quero que você interprete isso como promessa de relacionamento.

— Ainda bem.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Ainda bem?

— Eu não quero que você apareça com flores, peça minha mão e diga que precisamos casar porque houve um teste positivo.

— Eu também não.

— Ótimo.

— Ótimo.

Ficamos nos encarando.

Depois rimos outra vez.

Apesar disso, eu continuava desconfiada.

Não dele especificamente.

Da situação.

Gravidez podia obrigar duas pessoas a conversar, dividir decisões e assumir responsabilidades. Não podia obrigá-las a se amar.

Nas semanas seguintes, Lucas respeitou esse limite.

Não aparecia sem avisar.

Não me ligava dez vezes por dia.

Perguntava sobre consultas e exames, mas aceitava quando eu dizia que não precisava acompanhá-lo.

Também começou a participar das despesas médicas sem transformar cada pagamento em demonstração de poder.

Quando tentei devolver metade de um exame, ele disse:

— Se mais tarde for necessário formalizar tudo, a gente formaliza. Mas agora eu posso assumir minha parte sem controlar você.

Guardei aquela frase.

Não porque fosse bonita.

Porque era exatamente o que eu precisava ouvir.

No hospital, os colegas dele começaram a perceber que algo havia mudado.

O médico que tinha me chamado de “cunhada” no primeiro dia foi repreendido por Lucas.

— Pare de chamar ela assim. Ela tem nome e não é minha mulher.

Quando Lucas me contou, fiquei surpresa.

— Você brigou por causa disso?

— Não briguei. Só corrigi.

— Você podia ter deixado.

— Não. Porque transforma você numa posição que nunca escolheu.

Pouco a pouco, comecei a enxergá-lo longe daquela primeira manhã.

Lucas era metódico, pontual e irritantemente racional.

Mas também sabia admitir quando errava.

E não tentava comprar espaço na minha vida usando a gravidez.

Foi isso que começou a me assustar.

Porque seria muito mais fácil manter distância se ele fosse um homem irresponsável.

Numa consulta algumas semanas depois, ouvi pela primeira vez o coração do bebê.

O som rápido preencheu a sala.

Minha garganta fechou.

Lucas ficou imóvel ao meu lado.

Não tentou segurar minha mão.

Talvez estivesse esperando permissão.

Fui eu quem estendeu os dedos.

Ele olhou para mim antes de tocá-los.

Então segurou minha mão.

Sem apertar demais.

Sem dizer nada.

Na saída, caminhamos até o estacionamento.

— Estou com medo — confessei.

Ele parou.

— Do bebê?

— De tudo.

Respirei fundo.

— De criar uma criança com alguém que conheci por acidente. De depender de você. De você mudar de ideia. De eu confundir sua responsabilidade com sentimento.

Lucas ficou sério.

— Eu também tenho medo.

Aquilo me surpreendeu mais do que qualquer declaração bonita teria surpreendido.

— Você?

— Você acha que cardiologista não entra em pânico?

— Você disfarça bem.

— Anos de treinamento.

Sorri.

Mas ele não.

— Eu não sei o que nós vamos ser. Não quero mentir dizendo que sei. Só sei que quero ser pai dessa criança se a confirmação for a esperada e quero estar presente de uma forma que não destrua sua autonomia.

— E nós?

Ele respirou fundo.

— Nós precisamos parar de agir como se só existissem duas opções: casar amanhã ou nunca mais nos vermos.

Meu coração acelerou.

— Então o que você propõe?

— Que a gente se conheça.

Não respondi.

Lucas continuou:

— Jantar. Conversar. Descobrir quem você é quando não está bêbada entrando no quarto errado.

— E quem você é quando não está com febre dormindo de porta aberta.

— Exatamente.

Eu ri.

Então ele ficou sério novamente.

— Não quero pedir namoro porque existe um bebê. Quero pedir uma chance de conhecer você porque comecei a gostar da mulher que aparece nas consultas, que discute comigo e que tenta resolver tudo sozinha.

Minha boca ficou seca.

— E se eu disser não?

Lucas respondeu sem hesitar:

— Eu continuo sendo pai.

Aquelas palavras foram mais importantes do que qualquer pedido.

Porque, pela primeira vez desde que vi as duas linhas no teste, percebi que eu realmente tinha uma escolha.

E talvez fosse justamente por ter essa escolha que eu estava começando a querer dizer sim.

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