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Meu marido levou a amante grávida para dentro de casa — e só entrou em pânico quando eu assinei o divórcio

Parte 3

A sala ficou imóvel.

Minha advogada não demonstrou surpresa, mas imediatamente pediu que Gustavo repetisse o que havia acabado de dizer. Não como marido arrependido, e sim como presidente de um grupo empresarial admitindo ter usado sua influência profissional para pressionar parceiros por causa de um conflito pessoal.

— Você está dizendo que fez isso porque meu irmão esbarrou em Sofia? — perguntei.

Gustavo apertou os lábios.

— Ela disse que ele tinha feito de propósito. Disse que a família Almeida estava tentando intimidá-la por causa de nós dois.

— E você acreditou.

— Sim.

— Sem perguntar ao meu irmão.

Ele baixou os olhos.

— Sim.

— Sem perguntar a mim.

Dessa vez ele demorou mais.

— Sim.

Eu queria gritar.

Queria perguntar como um homem capaz de analisar contratos milionários, riscos societários e relatórios financeiros havia se tornado tão cego quando Sofia chorava.

Mas não perguntei.

A resposta já estava diante de mim.

Ele não havia sido enganado porque era ingênuo.

Tinha sido enganado porque escolhera acreditar nela.

— O que exatamente você fez? — minha advogada perguntou.

Gustavo explicou que o Grupo Guedes tinha dois contratos importantes com a empresa do meu pai. Depois do episódio com Sofia, ele decidiu não renová-los. Até ali, apesar da crueldade, era uma decisão comercial que poderia ser justificada internamente.

O problema veio depois.

Movido pela raiva, ele telefonou para executivos de duas empresas parceiras e insinuou que manter negócios com os Almeida poderia prejudicar futuras relações com o Grupo Guedes.

A empresa do meu pai já estava fragilizada.

A retirada dos contratos provocou problemas de caixa. A perda dos parceiros piorou a situação. Bancos reavaliaram limites de crédito e fornecedores endureceram condições.

A falência não tinha acontecido em cinco minutos.

Tinha sido uma sequência.

E Gustavo havia empurrado a primeira pedra sabendo o peso que carregava.

— Por que está me contando agora? — perguntei.

Ele ergueu os olhos.

— Porque eu fui longe demais.

Soltei uma risada curta.

— Você descobriu isso agora?

— Marina…

— Meu pai perdeu a empresa. Funcionários perderam emprego. Meu irmão passou meses achando que tinha destruído nossa família por causa de um esbarrão em uma festa. E você me diz que “foi longe demais” como se tivesse passado do ponto numa discussão?

Ele não reagiu.

Dessa vez, ao menos, não tentou se defender.

Minha advogada explicou que os Almeida poderiam avaliar medidas judiciais relacionadas à interferência comercial, mas que seria preciso reunir documentos, mensagens, atas internas e registros de decisões. Não bastava a confissão informal de Gustavo.

Olhei para ele.

— Você vai preservar esses registros?

— Vou.

— Não quero um favor.

— Não é favor.

— Então faça porque é sua obrigação.

Ele assentiu.

Antes de sair, Gustavo me perguntou algo que eu não esperava.

— Você algum dia mandou alguém seguir Sofia?

Fiquei parada.

Aquela era a acusação que tinha terminado com o tapa.

— Não.

— Nem pediu para investigar onde ela estava?

— Não.

O rosto dele perdeu cor.

— Eu deveria ter perguntado.

— Deveria.

Só isso.

Não dei a ele a tranquilidade de dizer que ainda havia chance.

Dias depois, fui com meu irmão buscar as últimas coisas na mansão. Gustavo não estava. Sofia, porém, estava na sala.

Ela olhou para as caixas e sorriu.

— Então é definitivo mesmo?

— É.

— Melhor para todo mundo.

Meu irmão ficou tenso, mas eu toquei o braço dele antes que respondesse.

Fomos direto ao escritório.

Os livros ainda estavam nas estantes porque Gustavo havia impedido a reforma. Separei os que pertenciam a mim, meus materiais de pintura e algumas fotografias.

Quando passamos pelo quarto onde Sofia costumava ficar, vi o vaso da minha mãe sobre um aparador.

Parei.

— Esse vaso é meu.

Sofia colocou a mão sobre ele.

— Gustavo me deu.

— Gustavo não podia dar aquilo.

— Ele deu.

— Pertencia à minha mãe antes do casamento.

Ela riu.

— Marina, você está mesmo fazendo questão de um vaso velho depois de tudo?

A frase me atingiu com a mesma força que as palavras de Gustavo meses antes.

Meu irmão avançou um passo.

— Entrega para ela.

— Não se mete.

Foi quando Gustavo apareceu no corredor.

Ele tinha ouvido.

Sofia mudou imediatamente de expressão.

— Amor, ela está querendo levar o vaso que você me deu.

Gustavo olhou para o objeto, depois para mim.

— Devolva para Marina.

Sofia ficou sem reação.

— Como é?

— O vaso era da mãe dela. Eu não tinha direito de dar.

— Mas você disse…

— Eu estava errado.

Foi uma frase simples.

Talvez fosse a primeira vez em sete anos que eu o ouvia reconhecer um erro sem colocar um “mas” depois.

Sofia ficou vermelha.

— Agora tudo é culpa minha?

— Eu não disse isso.

— Não precisa dizer. Desde que ela pediu o divórcio, você age como se eu tivesse destruído sua vida.

Gustavo respondeu:

— Foi você quem disse que o irmão dela te empurrou de propósito?

— Ele esbarrou em mim.

— Você disse que foi de propósito.

Sofia cruzou os braços.

— Eu estava nervosa.

— E sobre aquelas pessoas que supostamente tinham sido mandadas por Marina para te perseguir?

Ela piscou.

— Eu disse que estavam me seguindo.

— Você disse que Marina tinha mandado.

— Eu achei que fosse ela.

— Você tinha alguma prova?

Sofia ficou em silêncio.

A tensão no corredor ficou pesada.

Então ela perdeu a paciência.

— Fala sério, Gustavo. Você quer jogar tudo nas minhas costas agora? Eu nunca coloquei uma arma na sua cabeça. Eu chorava e você fazia o resto.

Ele ficou imóvel.

Sofia continuou, cada vez mais exaltada:

— Eu falei que me sentia desconfortável com a exposição, e você cancelou. Eu disse que não gostava daquele escritório, e você resolveu transformá-lo no quarto do bebê. Eu reclamei das árvores, e você mandou arrancar. Eu disse que os Almeida me tratavam mal, e você cortou os contratos.

Gustavo parecia ter levado um golpe.

Mas Sofia ainda não tinha terminado.

— Eu nem precisei pedir para você destruir a empresa deles. Bastava eu ficar chateada e você queria provar que podia me proteger de todo mundo.

Ele olhou para mim.

Não havia como fugir daquela verdade.

Sofia tinha manipulado situações.

Tinha exagerado acusações.

Tinha gostado da sensação de ocupar meu lugar.

Mas cada decisão importante havia sido tomada por Gustavo.

— Marina…

Levantei a mão.

— Não.

Ele parou.

Peguei o vaso da minha mãe e entreguei ao meu irmão.

— Não use o que ela disse para se absolver.

— Eu não estou tentando…

— Está, mesmo sem perceber.

Aproximei-me dele.

— Sofia podia mentir. Podia chorar. Podia inventar que meu irmão não gostava dela. Mas foi você quem cancelou meu trabalho. Foi você quem me bateu. Foi você quem me tirou do meu quarto. Foi você quem entregou as coisas da minha mãe. Foi você quem prejudicou meu pai.

Ele não contestou.

— Você não foi uma vítima da Sofia, Gustavo. Você foi o homem que tinha poder para fazer tudo isso e escolheu usar esse poder contra mim.

Os olhos dele ficaram úmidos.

Eu não senti satisfação.

Só cansaço.

Antes de sair, Sofia perguntou atrás de nós:

— Então é isso? Você vai acabar comigo por causa dela?

Gustavo respondeu sem olhar para mim:

— Não. Se alguma coisa acabar entre nós, vai ser por causa das nossas próprias escolhas.

Levei minhas caixas.

Levei o vaso.

Levei os quadros.

Mas naquela noite, pela primeira vez desde o início de toda aquela história, não levei culpa nenhuma comigo.

Na semana seguinte, minha advogada protocolou oficialmente as medidas necessárias para o divórcio e enviou uma notificação formal solicitando a preservação dos documentos empresariais relacionados aos antigos contratos do Grupo Almeida.

Meu pai ficou sabendo de tudo por mim.

Ele passou muito tempo calado.

Depois disse:

— Você não precisa consertar a empresa por mim.

— Eu sei.

— E não precisa ficar casada por nossa causa.

Senti meus olhos arderem.

— Eu também sei disso agora.

Meu irmão pediu desculpas por não ter percebido o quanto eu estava sofrendo. Eu disse que nenhum deles era responsável pelas escolhas que eu fiz para manter aquele casamento de pé.

Aquilo também era importante.

Eu precisava parar de transformar minha própria dor em dívida dos outros.

Gustavo cumpriu a promessa de preservar os documentos. Também informou ao conselho do Grupo Guedes que poderia existir um conflito relacionado a decisões tomadas por motivos pessoais.

A notícia não derrubou a empresa.

Não congelou contas.

Não destruiu o império em um dia.

Mas abriu uma investigação interna.

Conselheiros que antes não questionavam as decisões dele começaram a pedir explicações.

E Gustavo, pela primeira vez, teve de responder sem poder mandar que alguém saísse da sala.

Sofia ligou para mim duas vezes.

Não atendi.

Na terceira, deixou uma mensagem:

“Você conseguiu o que queria. Ele não fala mais comigo como antes.”

Apaguei.

Eu não tinha conseguido homem nenhum.

Eu tinha conseguido sair.

Cerca de duas semanas depois, recebi da minha advogada a minuta dos termos que Gustavo finalmente aceitava discutir. Nada de trinta por cento das ações como prêmio por permanecer casada. Nada de joia. Nada de presentes usados como corrente.

A divisão patrimonial seria tratada conforme nossos direitos e o regime do casamento.

Ponto.

Quando saí do escritório, Gustavo estava no corredor.

— Marina.

Parei.

— O quê?

— Eu queria saber se existe alguma coisa que eu possa fazer para você não me odiar.

Observei aquele homem durante alguns segundos.

Sete anos antes, eu teria dado qualquer resposta capaz de diminuir a dor dele.

Agora não.

— Eu não preciso te odiar para ir embora.

Ele pareceu confuso.

Continuei:

— E você não precisa que eu te perdoe para começar a fazer o que é certo.

Entrei no elevador.

Antes que as portas fechassem, ele perguntou:

— Então acabou mesmo?

Olhei para ele.

— Para mim, acabou no dia em que percebi que precisava pedir permissão para continuar existindo dentro da minha própria casa.

As portas começaram a se fechar.

Foi quando meu celular tocou.

Era minha advogada.

Atendi.

Ela foi direta:

— Marina, o conselho do Grupo Guedes acabou de solicitar formalmente todos os registros das decisões envolvendo a empresa do seu pai. Gustavo não vai conseguir tratar isso como um problema particular nunca mais.

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