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No aniversário de seis anos, ouvi meu namorado dizer que ficar comigo tinha virado um procedimento sem graça

Parte 4

— Depois que eu saí, você entregou a caixa para ela.

Não era uma pergunta.

Gabriel assentiu.

— Sim.

— E ela publicou a foto.

— Eu pedi para ela apagar depois.

Soltei uma risada sem humor.

— Depois que eu terminei com você.

— Sim.

Ficamos nos olhando por alguns segundos.

Nenhuma revelação poderia mudar mais nada. A verdade era quase banal: Gabriel tinha comprado o presente para Marina, mentido para mim quando foi pego e, quando a mentira não funcionou, devolvido o presente à pessoa para quem ele realmente tinha sido escolhido.

Simples.

Cruel.

E perfeitamente coerente com tudo o que eu vinha sentindo.

— Você gosta dela?

Gabriel balançou a cabeça depressa.

— Não do jeito que você está pensando.

— Então me explica do jeito certo.

Ele passou a mão pela nuca.

— Eu gostava de ser necessário para ela.

Aquilo me fez ficar em silêncio.

Gabriel continuou antes que faltasse coragem.

— Marina me procurava para tudo. Perguntava minha opinião. Dizia que eu era brilhante, que sem mim não conseguiria terminar o projeto. Quando eu ajudava, ela parecia realmente impressionada.

— E eu não.

— Você me conhecia há seis anos.

— Isso é culpa minha?

— Não.

A resposta veio rápida.

— Não, Lívia. É culpa minha.

Pela primeira vez desde que tudo começou, ele não tentou colocar uma justificativa depois.

— Com você, eu achava que estava tudo garantido. Você conhecia meus defeitos, conhecia minhas inseguranças, me viu fracassar em prova, perder bolsa, errar apresentação. Com a Marina, eu era o veterano que sempre sabia o que fazer.

— Então você preferiu a admiração dela à intimidade comigo.

Gabriel abaixou a cabeça.

— Acho que sim.

Doía ouvir.

Mas havia uma diferença enorme entre aquela dor e a que senti do lado de fora do laboratório.

Agora eu não estava procurando uma desculpa para continuar.

Estava apenas ouvindo a verdade.

— Vocês se beijaram?

— Não.

— Ficaram juntos?

— Não.

— Você queria?

Ele demorou.

E aquela demora já era uma resposta.

— Às vezes eu pensei em como seria — admitiu. — Mas nunca fiz nada.

Respirei fundo.

— Obrigada por não mentir dessa vez.

Gabriel ergueu os olhos.

— Então ainda existe alguma chance?

— Não.

A esperança desapareceu tão rápido que quase senti pena.

Quase.

— Mas eu acabei de te contar tudo.

— E eu precisava ouvir. Isso não significa que a verdade apaga o que aconteceu.

— Eu posso cortar contato com ela.

— Não faça isso por mim.

— Eu faço qualquer coisa por você.

Balancei a cabeça.

— Esse é o problema. Agora você faria qualquer coisa.

A chuva da noite anterior veio à minha memória.

As sacolas.

Os cremes.

Gabriel ajoelhado.

— Quando eu pedi um creme simples, você não podia se afastar do grupo. Quando eu precisei de ajuda com o notebook, você não tinha tempo. Quando eu queria sair, quase sempre era eu quem organizava. Quando eu falava de alguma coisa da minha vida, você respondia com duas palavras.

Ele tentou falar.

Levantei a mão.

— Agora que eu fui embora, você compra dez cremes, passa a noite na chuva, mostra o celular inteiro e diz que faz qualquer coisa.

Minha voz não subiu.

— Eu não quero ser amada apenas quando estou indo embora.

Gabriel ficou imóvel.

A frase pareceu atingi-lo com uma força que nenhuma discussão anterior tinha conseguido.

No dia seguinte, fizemos a troca das nossas coisas perto da portaria do alojamento.

Levei duas camisetas, um livro, um carregador e a chave do apartamento dele.

Gabriel trouxe minha chave e uma caixa com objetos pequenos que tinham ficado na casa dele durante os anos de namoro.

Nenhum de nós demorou.

Quando ele me entregou a caixa, disse:

— Eu vou respeitar sua decisão.

— Obrigada.

— Não vou aparecer no seu alojamento outra vez.

Assenti.

— E vou falar com a Marina. Não para culpar ela. Eu deixei aquilo acontecer.

Olhei para ele.

Talvez aquela fosse a primeira atitude adulta que eu tinha ouvido desde o começo da confusão.

— É o mínimo.

Gabriel respirou devagar.

— Eu fui cruel quando falei de você com o Renato.

Não respondi.

Ele continuou:

— Não foi só uma piada idiota. Eu quis parecer superior. Quis parecer como se eu fosse o cara preso numa relação sem graça, quando, na verdade, eu estava acomodado e covarde.

Meus dedos apertaram a alça da caixa.

— Você me humilhou num lugar em que todo mundo me conhecia.

— Eu sei.

— E depois tentou dizer que era só “papo de homem”.

— Eu sei.

— Não use mais isso.

Ele assentiu.

— Não vou.

Dei meia-volta.

— Lívia.

Parei.

— Desculpa.

Olhei para ele uma última vez.

— Espero que um dia você entenda que pedir desculpa não serve para recuperar tudo. Às vezes serve só para você aprender a não fazer a mesma coisa com outra pessoa.

Gabriel não respondeu.

E eu fui embora.

Nas semanas seguintes, ele realmente manteve distância.

Quando precisávamos estar no mesmo prédio, apenas cumprimentava. Não mandava mensagens de madrugada. Não aparecia com flores. Não tentava fazer Júlia intermediar conversas.

Soube por acaso que ele tinha diminuído bastante o contato pessoal com Marina e estabelecido limites mais claros no laboratório.

Não senti vitória.

Marina também não virou minha inimiga.

Ela tinha flertado com uma proximidade que sabia ser ambígua, e eu não precisava gostar dela por isso. Mas Gabriel era o homem que tinha compromisso comigo.

Era dele a responsabilidade de proteger esse limite.

Um dia, Marina me encontrou sozinha perto das máquinas de café.

Hesitou antes de falar.

— Lívia.

Esperei.

— Eu queria pedir desculpa.

Não respondi imediatamente.

Ela apertou o copo entre as mãos.

— Eu sabia que ele namorava. E gostei da atenção. Acho que passei do limite em algumas coisas.

— Passou.

Ela assentiu.

— Eu sei.

Não houve abraço.

Não houve amizade repentina.

Apenas aceitei o pedido de desculpas com um movimento de cabeça e seguimos para lados diferentes.

Foi suficiente.

Caio apareceu alguns dias depois carregando o fone de ouvido que eu tinha colocado nas mãos dele.

— Eu fiquei com peso na consciência.

Olhei para a caixa.

— Por quê?

— Porque obviamente você não tinha comprado isso para mim.

— Mas eu te dei.

— No meio de uma guerra.

Sorri.

— Então considera indenização pelo notebook.

Ele riu.

— Um chá gelado já tinha resolvido.

— Agora resolveu duas vezes.

Caio guardou a caixa novamente.

Não houve romance.

Nenhuma paixão instantânea.

E eu agradeci por isso.

Pela primeira vez em anos, eu não queria organizar minha vida ao redor de um homem.

Queria descobrir como ela ficava quando eu não estava esperando mensagens.

Voltei a fazer algumas coisas que havia deixado de lado.

Passei a almoçar com Júlia sem conferir o celular a cada cinco minutos.

Aceitei convites de colegas para estudar fora do campus.

Nos fins de semana, às vezes ia sozinha ao cinema quando ninguém queria assistir ao mesmo filme.

Descobri que jantar sozinha não era triste.

Triste era jantar com alguém e ainda assim se sentir invisível.

Dois meses depois, encontrei Gabriel perto do jardim.

Ele estava sentado no banco onde costumávamos esperar o ônibus.

Por um instante, nenhum dos dois soube se deveria falar.

Foi ele quem se levantou.

— Oi.

— Oi.

Parecia mais magro.

Também parecia mais tranquilo.

— Como você está?

— Bem.

Ele assentiu.

— Eu comecei terapia.

Não perguntei por quê.

Gabriel deu um sorriso pequeno.

— Não estou dizendo isso para tentar te impressionar.

— Espero que não.

— Estou dizendo porque finalmente entendi uma coisa.

Esperei.

— Eu achava que intimidade era perder novidade. Agora percebi que eu tinha parado de prestar atenção. Não foi o relacionamento que ficou sem graça. Fui eu que parei de participar dele.

A frase me atingiu, mas não abriu nenhuma porta.

Só fechou uma que ainda permanecia meio encostada dentro de mim.

— Que bom que você percebeu.

— Eu ainda sinto sua falta.

— Eu sei.

— Mas não vou pedir para voltar.

Assenti.

— Obrigada.

Gabriel olhou para o chão e sorriu com tristeza.

— Você estava certa naquela noite.

— Sobre o quê?

— Sobre merecer alguém melhor.

Não respondi.

Ele continuou:

— Espero que encontre.

Olhei para ele.

— Eu também.

E dessa vez fui embora sem sentir que estava abandonando seis anos.

Eu estava apenas deixando seis anos no lugar em que pertenciam: no passado.

Na semana seguinte, passei por uma loja de cosméticos no shopping.

Vi o creme da Estée Lauder que tinha pedido durante a viagem de Gabriel.

Fiquei parada diante da prateleira por alguns instantes.

Depois comecei a rir sozinha.

A vendedora se aproximou.

— Posso ajudar?

Peguei uma caixa.

— Pode. Vou levar esse.

Paguei com meu próprio cartão.

Nenhum presente.

Nenhuma culpa.

Nenhuma reconciliação escondida dentro de uma sacola.

Na volta para o campus, encontrei o gato laranja deitado perto do jardim.

Comprei um pedaço de frango na cantina e coloquei perto dele.

O ingrato cheirou, virou a cabeça e foi embora.

Peguei o celular quase por reflexo.

Durante anos, aquela teria sido exatamente a coisa que eu mandaria para Gabriel.

“Olha o gato metido de novo.”

Fiquei com a tela aberta.

Depois guardei o celular no bolso.

Sorri e continuei caminhando.

Eu não precisava contar tudo a alguém para aquilo ter valor.

Não precisava pedir atenção, disputar cuidado ou transformar migalhas em provas de amor.

Gabriel tinha sido uma parte enorme da minha vida.

Mas não era a minha vida inteira.

E foi assim que segui em frente: sem dez potes de creme, sem promessas debaixo da chuva e sem olhar para trás, descobrindo que a paz que eu tanto procurava começava exatamente no lugar onde eu finalmente tinha escolhido a mim mesma.

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