No aniversário de seis anos, ouvi meu namorado dizer que ficar comigo tinha virado um procedimento sem graça
Parte 3
Na manhã seguinte, acordei antes do despertador.
Gabriel tinha mandado trinta e duas mensagens durante a madrugada. Algumas eram pedidos de desculpa. Outras tentavam explicar. Em duas, ele dizia que eu estava confundindo “proximidade acadêmica” com traição.
Não respondi.
Tomei banho, fui à aula e passei a manhã inteira com o celular no silencioso.
A parte mais estranha era perceber que eu conseguia funcionar.
Sempre achei que, se um dia terminássemos, eu não conseguiria comer, estudar ou dormir. Durante seis anos, organizei tanta coisa da minha vida ao redor dele que Gabriel parecia fazer parte da estrutura do mundo.
Mas o mundo continuava em pé.
No horário do almoço, encontrei Júlia sentada na cantina.
Ela empurrou um prato na minha direção.
— Você vai comer.
— Não estou com fome.
— Não perguntei.
Sentei.
Depois de alguns minutos, ela perguntou:
— Você acha que ele te traiu?
Mexi no arroz com o garfo.
— Não sei.
— Vai querer descobrir?
Pensei antes de responder.
— Quero descobrir o suficiente para não mentir para mim mesma. Não quero virar investigadora da vida dele.
Essa frase me surpreendeu.
Até o dia anterior, eu provavelmente teria vasculhado curtidas, horários, fotos e comentários. Teria tentado calcular quando Gabriel começou a gostar de Marina e quantas vezes haviam saído juntos.
Agora, alguma coisa tinha mudado.
Eu não precisava provar uma relação física para reconhecer que já existia uma traição no modo como ele me tratava.
À tarde, Gabriel esperava perto da saída do prédio onde eu tinha aula.
Não estava molhado nem ajoelhado. Usava a mesma camisa do dia anterior, amassada, e parecia não ter dormido.
— Só dez minutos.
Continuei andando.
Ele veio ao meu lado.
— Eu não vou encostar em você. Só quero explicar.
— Você já explicou. É “proximidade acadêmica”.
— Eu falei aquilo com raiva.
Parei.
— Você está vendo? Até agora você só fala de como você reagiu. Nunca do que fez.
Gabriel baixou os olhos.
— Tá. Então me pergunta.
— Não tenho interrogatório preparado.
— Pergunta qualquer coisa.
Respirei fundo.
— Por que você voltou antes e não me contou?
Ele demorou.
— Marina tinha uma apresentação importante. Eu disse que ajudaria a revisar.
— Você poderia ter me avisado.
— Poderia.
— Por que não avisou?
— Porque eu sabia que você ia querer me ver.
A sinceridade daquela resposta doeu mais do que uma desculpa ruim.
— E você não queria me ver.
Gabriel passou a mão pelo rosto.
— Eu estava cansado.
— Para mim.
Ele não respondeu.
Continuei:
— Você estava cansado demais para me encontrar no nosso aniversário. Mas não estava cansado para revisar apresentação da Marina, mandar mensagem para ela vir ao laboratório e combinar jantar.
— Não era um encontro.
— Eu não perguntei se era.
Ele ficou sem resposta outra vez.
Gabriel disse que queria me mostrar uma coisa.
Tirou o celular do bolso e abriu a conversa com Marina.
— Olha. Pode ler. Não existe nada sexual. Nunca aconteceu nada.
Não peguei o aparelho.
— Eu não quero mexer no seu celular.
— Por favor. Eu preciso que você veja.
Acabei segurando.
Não havia declaração de amor.
Não havia fotos íntimas.
Não havia qualquer frase que pudesse ser usada como prova perfeita de uma traição física.
E talvez fosse justamente por isso que aquilo me atingiu tanto.
Marina mandava uma mensagem sobre o almoço, e Gabriel respondia em minutos.
Ela dizia que estava cansada, e ele perguntava se tinha comido.
Ela reclamava de uma apresentação, e ele escrevia parágrafos inteiros tentando tranquilizá-la.
Quando ela comentava que não conseguia dormir, ele indicava chá, música, horário para descansar.
Ela mandava foto do computador às duas da manhã, e ele respondia:
“Vai dormir. Amanhã você não vai render nada assim.”
Rolei mais.
Havia piadas internas.
Comentários sobre professores.
Fotos de café.
Um dia, Marina tinha escrito:
“Você presta mais atenção em mim que minha própria família kkkkk.”
Gabriel respondeu:
“Alguém tem que impedir você de se matar de trabalhar.”
Meu peito apertou.
Voltei para a conversa entre mim e ele.
Não precisei abrir.
Eu sabia de memória.
“Meu notebook quebrou.”
“Leva na assistência.”
“Não estou bem hoje.”
“Descansa.”
“Vamos jantar?”
“Pode ser.”
Devolvi o celular.
— Você tem razão.
Gabriel pareceu respirar.
— Eu sabia que você ia entender.
— Não houve traição física ali.
O alívio desapareceu do rosto dele.
— Mas isso não melhora nada.
— Lívia…
— Você sabe perguntar se ela almoçou. Sabe insistir para ela descansar. Sabe ouvir problema de projeto, lembrar de olheira, escolher presente, combinar restaurante.
Minha voz falhou, mas continuei.
— Então você não é um homem frio. Não é ruim de mensagem. Não é distraído. Você só deixou de fazer essas coisas comigo.
— Não foi de propósito.
— Depois de quanto tempo uma escolha repetida deixa de ser acidente?
Gabriel fechou os olhos.
— Eu não sei.
— Eu sei.
Comecei a andar de novo.
Ele me acompanhou.
— Eu gosto de você, Lívia.
— Você gosta da certeza de que eu estava disponível.
— Não é verdade.
— Eu te procurei durante anos. Fiz convite, organizei aniversário, lembrei de data, comprei presente, cuidei de você quando estava doente, fiquei acordada quando sua qualificação deu errado.
Ele apertou os lábios.
— E eu reconheço isso.
— Agora reconhece.
Gabriel pediu que eu desse uma chance para ele mostrar que poderia voltar a ser como antes.
Perguntei:
— Como antes quando?
Ele não entendeu.
— Antes de você se cansar de mim? Antes da Marina? Antes de começar a falar para seus amigos que ir para a cama comigo parecia preencher formulário?
O rosto dele ficou vermelho.
— Aquilo foi nojento. Eu sei.
— Você sabia enquanto dizia.
— Eu estava me exibindo.
— Às minhas custas.
Ele não tentou negar.
Ficamos perto do jardim central, onde alguns alunos conversavam nos bancos como se nada importante estivesse acontecendo.
Foi ali que finalmente percebi que eu não queria uma promessa.
Eu queria encerrar a parte prática da nossa vida.
— Você ainda está com a chave do meu quarto antigo no apartamento da minha tia.
Gabriel assentiu.
— Está na minha gaveta.
— Me devolve.
Ele me encarou.
— Lívia…
— E amanhã eu levo a sua chave, suas camisetas e o carregador que ficaram comigo.
— Você está falando como se fosse definitivo.
— É definitivo.
A palavra saiu sem tremor.
Gabriel engoliu em seco.
— Você não pode decidir isso em dois dias.
— Eu não decidi em dois dias. Eu só levei dois dias para aceitar o que estava acontecendo havia meses.
Ele ficou parado.
Eu dei alguns passos, mas ouvi sua voz novamente.
— Tem uma coisa que eu preciso contar.
Parei.
Não virei imediatamente.
— Se for para diminuir o que aconteceu, guarda para você.
— Não é.
Olhei por cima do ombro.
Gabriel estava pálido.
— A sacola da Helena…
Meu estômago se contraiu.
Ele respirou fundo.
— Quando eu coloquei aquilo na sua mão, ela não tinha sido comprada para você.
Não respondi.
— Eu tinha comprado para a Marina.
O barulho ao redor pareceu se afastar.
Gabriel continuou:
— Quando você entrou no laboratório e eu percebi que tinha ouvido a conversa… eu entrei em pânico. Peguei a primeira coisa que achei que poderia provar que eu tinha lembrado de você.
Aquele era o momento em que, meses antes, eu teria chorado.
Naquela tarde, só senti uma tristeza muito limpa.
— Então você não apenas esqueceu de mim.
Minha voz saiu baixa.
— Você tentou usar o presente de outra mulher para me convencer de que eu ainda era importante.
Gabriel não encontrou resposta.
E naquele instante eu entendi que o fim do nosso namoro não tinha começado com Marina.
Tinha começado muito antes, no dia em que Gabriel decidiu que podia me oferecer cada vez menos porque acreditava que eu jamais teria coragem de ir embora.
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